Etiquetas

, , , ,

Na minha segunda visita a Polónia, no verão de 2008, entramos naquele país desde a  Alemanha, através da cidade de Görlitz / Zgorzelec. É uma cidade que foi selvagemente dividida en duas após a fim da Guerra Mundial, quando as fronteiras polacas avançaram para o leste até ao río Nysa-Neisse, que foi estabelecido como limite internacional entre ambos os Estados.

Lembro que na parte alemã se prodigavam os cartazes bilingues, em alemão e polaco, que mesmo nos negócios acostumavam alternar ambas as linguas. Porém, quando atravessámos a ponte que une a parte alemã com a polaca, as coisas mudaram radicalmente. Nos primeiros negócios em que quis pedir algo, empreguei o alemão. Não tinha dúvida na altura -e sigo sem tê-la agora- de que me entendiam perfeitamente nesse idioma. Porém, a reação dos polacos, perante o meu “Sprechen Sie Deutsch” era invariavelmente uma expressão de nojo e enfastio difícil de descrever.

Por quê? Foi algo que me perguntei naquela altura e que me sigo a perguntar hoje. Mas o curioso do assunto é que quando mudei o alemão polo checo, aquelas expressões de nojo se mudaram em sorriso. Eu não falo polaco, posso entendê-lo minimamente, nomeadamente escrito, mercê aos meus conhecimentos do checo, mas é bem complicado para mim poder comunicar-me minimamente com um polaco, falando o outro polaco e eu checo. Mesmo assim, logrei-o sempre que estive na Polónia.

Portanto, os polacos preferem uma comunicación mista checo-polaco antes de acudirem a uma língua compreensível para ambos, nesse caso o alemão. Fascinante. Ainda que nenhum polaco mo disse nunca, as raízes dessa atitude glossófoba procedem ainda da Segunda Guerra Mundial e, no caso da devandita povoação, por mor da divisão brutal da cidade en duas partes, passando cada uma a um Estado diferente.

A possibilidade de hoje poder cruzar entre ambos os lados da fronteira sem problemas mercê à pertença a Schengen de ambos os Estados, o alemão e o polaco, ainda não teve efeitos nessa reunificação social. É bem triste, a meu ver, que uma língua como a alemã haja de pagar pelas brutalidades cometidas por uns energúmenos sem cérebro há mais de cinquenta anos. Porém, nem só na Polónia verifiquei atitudes glossófobas contra o alemão, também na Chéquia acontece, se calhar algo menos vistosamente, mas existem.  Curiosamente, quando um ranha neste idioma, o alemão sai por baixo da sua derme em estado puro. Quanta influência teve o alemão no checo nos séculos pretéritos, e também no polaco e no eslovaco.

Para concluir, vou contar uma anedota real de que fui testemunha em agosto de 2008. Numa bomba da gasolina em Hungria, numa autoestrada para além de Budapeste, em direção à Roménia, vi como um condutor polaco e uma dependenta húngara mantiveram uma intensa conversa de cinco minutos na sua língua respetiva. Entrambos interagiam perfeitamente, com sorrisos e gestos afáveis. Visto desde fora, parecia que ambas as pessoas se entendiam perfeitamente. Porém, não era assim, o polaco não entendia o húngaro nem a húngara entendia o polaco. Contudo, parece que se entenderam sen problema nenhum. Que linguagem não verbal usariam? Eu sigo a lhe dar voltas a esse mistério.