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Os Sudetes

Os Sudetes

Um dos episódios mais tristes da história checa relativamente recente é o do destino da minoria alemã dos Sudestes.

É bem certo que as brutalidades dos alemães durante a SGM não têm justificação, mas também não a têm -nem como vingança- as sofridas pelos alemães na posguerra.

Um desses episódios lamentáveis foi a expulsão da totalidade da povoação alemanofalante dos Sudetes, isso sen contar com os assassinatos reais cometidos.

A presença da língua alemã na Boémia, Morávia e Eslováquia é antiquíssima. As minorias germanófonas habitavam o reíno boémio desde muitos séculos atrás. Porém, a situação do idioma checo no século XIX era o duma língua ameaçada, pois o alemão era a língua oficial (Boémia fazia parte do Império Austro-Húngaro). A independência da primitiva Checoslováquia supôs a recuperação total do checo e a garantia da sua supervivência.

Porém, a língua alemã foi o veículo da cultura do país durante muitos séculos, como também o foi -e o é- a língua checa. Por isso, é agora tão triste ver que naquelas terras dos Sudestes, onde no passado se falou alemão, já não ficam mais que placas que o testemunham, onde a povoação da zona chegou depois da Guerra procedente doutras partes do país. Era uma língua tão própria da Boémia que mesmo o alemão falado nos Sudetes tinha os seus próprios dialetos, nascidos e desenvolvidos no sítio. Ainda não há muito tempo, uma amiga praguense me recordava que a sua avó falava gablonz deutsch, é dizer, o alemão próprio da atual cidade de Jablonec (em alemão Gablonz).

Franz Kafka

A meu ver, a língua alemã faz parte da história checa. Aí está o Franz Kafka, um escritor universal de complicado encaixe na Chéquia atual. Não se entende o Kafka sem Praga e, paradoxalmente, Kafka é agora um dos reclamos publicitários mais utilizados em Praga.

Recentemente morreu Lenka Reinerová, a última escritora checa de língua alemã. Uma grande perda nem só literária, mas também da cultura de expressão alemã na Chéquia atual.

Ignoro se isto tem volta atrás. Provavelmente não, mas é certo que existem asociações de checos falantes de alemão que lutan por se abrir passo, porque ainda há uma pequena minoria falante deste idioma. Publicam mesmo um jornal próprio, Landeszeitung, que se define como o jornal dos alemanófonos da Boémia, da Morávia e da Silésia.

Um breve percurso dessa história da língua checa nomeadamente en Praga encontra-se neste artigo da Wikipédia (em alemão). Do mesmo modo, quase todos os topónimos checos têm um equivalente alemão

Oxalá algum dia a Chéquia torne a ser un país de duas culturas e duas linguas. Com o passo do tempo, um chega a se aperceber de que a estupidez é monolingue, enquanto que a sensatez é políglota.  O meu amigo Emmanuel Mora Yglesias, costa-ricense políglota que viveu mais de dez anos em Praga, fala tanto alemão como checo e ele foi o meu guia nesta realidade. Com ele fui descobrindo essa Praga de lingua alemã que ainda assoma aos olhos de quem quer vê-la; conheci nomeadamente Malá Strana / die Kleinseite, o bairro fundado polos povoadores de língua alemã. Ele adoitava dizer: «Ich wohne nicht in Prag, sondern in der Kleinseite» (=Eu não vivo em Praga, mas em Malá Strana).

Magische Prag, auch auf Deutsch.