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Durante agosto de 2009 atravessámos a Eslovénia para aceder a Veneza. Vínhamos desde Praga e queríamos entrar por Trieste. Na altura, fizemos uma paragem na cidade de Maribor, no norte do país, perto da fronteira austríaca. Fieis às nossas tradições, fomos à primeira livraria que encontrámos para comprar a edição local d’O Principezinho para mim e de Pinóquio para a minha dona. Felizmente tinham ambas. Eu lembro que comecei a falar en inglês. Os dois jovens que atendiam o negócio falavam um bom inglês, mas a minha dona optou por falar diretamente em checo com eles. Eu pensei que aquilo não ia funcionar… mas claro que funcionou. Entendia-se com eles perfeitamente. Mais tarde, já na explanada dum café, pude comprovar eu próprio como podia pedir as bebidas em checo à camareira. Sem problema, broskev era breskev, káva era kava e coca-cola era coca-cola. Pedir um geleado já foi mais complicado, mas também se pôde.

Porém, já um ano antes, em agosto de 2009, tivera a oportunidade de empregar o checo num ponto muito remoto desse. Tratava-se da fronteira entre a Roménia e a Ucrânia já muito perto da fronteira húngara, na ponte internacional que separa Slatina (UA) de Sighetu Marmatiei (RO). A língua da zona, o russino, é muito vizinho ao ucraíno e ao eslovaco e, em certa medida, também ao checo. O pessoal dali entendía perfectamente o checo, mas tamén é verdade que aquilo estaba cheio de ucrânios emigrados na Chéquia que voltaram à casa de férias, como se podia observar nas matrículas dos autos. Como dado curioso, encontrei esta ligação com palavras em russino pronunciadas por nativos.

Posso mesmo remontar-me a outro agosto anterior, o de 2007, quando comprovei que o checo também me servia em Polónia, como já indiquei numa postagem anterior e também na Lusázia alemã. Não vale a pena assinalar que os eslovacos e os checos se entendem perfeitamente na sua língua respetiva.

Linguas eslavas (da Wikipedia)

E por quê? A razón é muito simples. Os idiomas eslavos têm em geral um grau de compreensão mútua muito maior do que outras famílias linguísticas. O português, espanhol e catalão são relativamente compreensíveis entre si, mais no nível escrito do que no falado, mesmo o italiano -a compreensibilidade mútua espanhol-italiano adoita ser elevada-, mas já não acontece o mesmo com o francês nem com o romeno. Porém, entre as línguas eslavas a compreensibilidade é muito maior, mas também é complicada entre os extremos, ponhamos por caso checo-russo, onde virtualmente não se entendem, mas com linguas mais próximas sim há um altíssimo grau de compreensão mútua. Talvez seja devido ao grande número de léxico comum e também a que a sintaxe paneslava mostra menos diferenças do que a panromânica.

Contudo, nestas minhas experiências centro-europeias hei de dizer que há um país em que nenhum dos idiomas que falo me serviu para nada: esse foi a Hungria. Tive a ‘imensa sorte’ de, tanto em Budapeste como en Debrecen não encontrar quase ninguém que falasse inglês (exceto o dono da pensão e un camareiro) ou alemão. Nesse caso, tornou-se absolutamente necessário recorrer à linguagem gestual, ao dicionário de bolso e à imaginação para se comunicar com a gente. Foi tremendo. Ora bem, os húngaros resultaram ser gente muito amável mesmo sem eu chegar a falar com eles.

Se alguém estiver a pensar em aprender alguma nova língua, recomendo-lhe portanto o checo. Para além da imensa cultura que recolhe, é uma língua que permite a comunicação por boa parte da Europa (Polónia, Eslováquia, ex-Iugoslávia,  Ucrânia), porque, desenganem-se, não é verdade que em todas as partes se fale inglês (e espanhol, ainda menos…)