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Há alguns meses escreví este texto no FaceBook a meio caminho entre e a ficção e a realidade. Vou reproduzi-lo aqui tal como apareceu naquela altura.

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Aquele dia acordei e vi que o ceu estava tudo cinzento. Saí para a rua. Gostava de passejar escutando as pessoas falar, mas naquele dia falavam todas igual. Percorri a cidade, mesmo o país e até atravessei a fronteira. Também além da fronteira, as pessoas falavam todas igual. Eu não percebia o que acontecia, portanto ainda atravessei aquele pais e mais outro, mas falavam igual em toda a parte.

Perguntei as pessoas: “É que já não falam a sua língua antiga?”. Eles olhavam para mim como se eu fosse um maluco, enquanto repetiam baixinho: “a nossa língua antiga, a nossa língua antiga…” Eram eles os malucos ou era eu?

Pensei na altura nos tradutores, nos professores de idiomas, nos estudantes de línguas… Senti curiosidade, onde é que ficariam? Mas a minha curiosidade durou pouco tempo, porque naquele país três fronteiras para além do meu levavam a enterrar o último intérprete. Tinha morrido na indigência, como bem se podia esperar naquele mundo onde todos falavam igual.

Senti uma desesperação total. Como era possível que eu tivesse acordado aquela manhã e tudo se tivesse mudado assim? Aliás, vi que as ruas, o ceu, as pessoas, as árvores… tudo era cinzento, tudo era igual. Aquilo não o teria imaginado nem o Kafka.

Decidi percorrer o continente e encontrar ainda quem falasse uma língua antiga. Não era possível que todos falassem igual. Eu próprio já nem lembrava que também podia falar outras línguas, mas quando tentava trazer alguma daquelas palavras, daquelas construções para a boca, morria na minha garganta, sem chegar a produzir qualquer som.

Após uma semana, não encontrei ninguém que falasse outra língua, todos falavam a língua comum. Então pensei nos livros que foram escritos nas outras línguas do continente. Onde é que estariam? Normalmente os livros ficavam nas bibliotecas. Procurei uma. Entrei nela. Mas o que vi foi um cemitério cheio de cruzes. E sob cada cruz um livro, alguns já convertidos em pó, se calhar nalguns ainda se podia ler um título numa língua que não era a comum.

Então cheguei até o mar. Molhei os pés na água e senti que o mar ainda falava. Falava a sua língua milenária. Mas foi por pouco tempo. Logo chegaram uns funcionários com garavata e fato cinzento que cobriram o mar de pintura cinzenta, até ele calar…

Acordei de repente banhado em suor. Tudo tinha sido um pesadelo. Na minha memória estavam vivas as palavras das outras línguas que eu gostei de apreender, lá estavam palavras como pitomec em checo, spitzfindig em alemão ou deu n’hi do em catalão. Respirei tranquilo.

De repente bateram na minha porta. Abri. Era um funcionário vestido em cinzento como o do meu pesadelo. As línguas da minha mente saltaram cheias de medo. Ele pareceu adivinhar os meus pensamentos. Sorriu mecanicamente, pegou numa espécie de saca-rolhas e antes de eu me dar conta, fez um buraco na minha cabeça, pelo qual começaram a saír palavras e palavras doutras línguas…

“Não é nada pessoal”, ouvi que me dizia o funcionário enquanto me sujeitava com força a cabeça, “mas o senhor já sabe que o monolinguismo é uma nova religião… Portanto, temos que impô-la”.