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Qahwa billug'it il3arabeya

É muito frequente que uma palavra primitiva (o étimo), ao passar a segundas linguas, adquira  significados distintos em tais segundas línguas. Assim acontece com os chamados falsos amigos, onde todos conhecemos casos do inglês com as linguas românicas estudados na escola, como librarylivraria.

Porém, a grandeza das línguas faz com que às vezes o percurso duma palavra se torne numa odisseia, de maneira que rastrejar o caminho seguido seja um lavor titânico. Assim e tudo, a procura das origens e a posterior descoberta dos novos significados podem deparar resultados curiosos, simpáticos mesmo.

Vou tentar fazer um desses percursos con duas palavras de origem árabe que se encontram em muitas línguas europeias, com sortes distintas. É bem certo que a maioria dos arabismos têm un significado comum nas línguas europeias e que às vezes, têm mais duma via de acesso.

Quando o espanhol fala duma taza de café, encontramo-nos com dous arabismos históricos, mas a mera tradução deles já nos dará problemas. En galego diremos uma cunca de café, em francês une tasse de café, em português uma bica de café, etc.

Comecemos pelo café: a palabra árabe qahwa (قهوة) é o nome do “café”. Logicamente, o nosso café deriva desse termo árabe, através duma evolução um tanto complicada acontecida na Península Ibérica que se pode resumir assim: o /h/ árabe deu en romance primitivo /f/ muitas vezes, o /q/ acostumava a ser interpretado como /k/, com o qual já temos algo assim como <kafwa>, para daí saltar a *<kafá>  e finalmente <kafé>, forma que aparace nas línguas ocidentais: FR, ES, GL-PT café, CT cafè, IT caffè, e posteriormente, inglês coffee e alemão Kaffee.

Esta é um ramo ocidental da palavra, mas existe uma oriental, onde a palavra árabe passou ao turco com a forma kahva. E a partir daí, passa para a Europa Oriental como kava, forma normal nas línguas eslavas e em húngaro (checo e eslovaco con vogal longa: káva), ainda que o romeno acolheu a palavra francesa: cafea. A forma é também parecida à occidental: kafés. Um pormenor interessante é que os vocábulos kava e cafea são femininos, como o é o árabe qahwa, mentres que os ocidentais e mais o grego são masculinos.

Porém, não remata aqui a história. A forma francesa entrou no checo falado deslocando a káva, para adquirir unha forma neutra nesta língua: kafe.

Ora bem, e que acontece com o arabismo tása, origem do espanhol taza? Esta palavra sim que é un autêntico enguedelho. Em árabe significa o mesmo que em espanhol. E assim passa para outras línguas: FR tasse, IT tazza, CT, tassa. O alemão toma-o do francês, de maneira que tem também Tasse. Até o de agora, em toda a parte é feminino e faz referência ao recipiente que permite tomar o café.

Mas de entrada, o termo não existe em galego, onde se prefire cunca ou conca, termo de origem latina. Também não se encontra em inglés, que apresenta um inesperado cup. Mas, atenção, porque este cup é irmão do espanhol copa, um copo com pé para o vinho (o galego-portugués copo é o masculino dessa copa). Ora bem, en português sim aparece uma taça, mas tem outro significado, refire-se ao que em espanhol se chama copa, mas não a do vinho, mas um trofeu. É um bom galimatias, não é? Em português, a taça mudou completamente o seu significado originário, pois também é equivalente ao inglês cup neste contexto.

Portanto, o portugués taça equivale ao espanhol copa, o espanhol taza é em português xícara. Não é tão complicado.

Ora bem, postos a falar de desviações no significado original, vou assinalar duas bem interessantes. Da forma italiana derivam a sarda tatza e a checa tác (pronunciado /´ta:ts/, onde já se dá, aliás, a mudança de género, pois passa a ser masculino.

Em sardo guarda ainda certa relação com o significado original, pois equivale ao italiano bicchiere (=copo), é dizer, ainda serve para beber, porém não precisamente café, mas água ou vinho. No entanto, em checo  passa a significar  “bandeja”, o qual não deixa de ser curioso, porém este termo também existe noutras línguas eslavas onde sim conserva a sua forma feminina: PL e CR taca /tatsa/ e eu diria que mesmo o húngaro talca.

Como se vê, o prosseguimento da história das palavras no solo europeu é um lavor interessante. Aqui não se pode falar de línguas pequenas ou grandes, línguas estatais ou regionais, mas simplesmente de línguas que dão e recebem, que partilham e desenvolvem palavras. É um convívio perfeito. Celebremo-lo, portanto, com uma boa tása qahwa.