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Se há algo complicado em certos casos é definir o que é uma lingua. E como isso é algo que pode abrir uma discussão enorme, eu não vou entrar na questão. Simplesmente vou centrar-me num caso: quando o conceito de língua cai grande ou, ao invês, pequeno. Haveria que ver se “não é lingua tudo o que soa”.

Bem, como dizia, vou concentrar-me em dois casos que me vêm muito perto e que pelo ponto de partida são semelhantes mas que no resultado final não o são. Trata-se do caso do galego-português e do asturo-leonês.

Para a filologia, galego-português e asturo-leonês são diassistemas ou domínios. Isto quer dizer que pode haver mais duma língua num domínio ou diassistema, que convivem junto com dialetos de toda casta, mas onde todos têm um denominador comum, uma série de traços comuns que lhes fazem manter a unidade, embora haja diversidade dentro do conjunto.

Portanto, na România há mais dum diassistema. Além do galego-português e do asturo-leonês, podemos considerar um diassistema o rético e o catalano-occitano, por pormos alguns exemplos. Ora bem, tornando ao caso galego-português, vamos ir atendendo a diversas considerações. Os galegos falam português? Não. Os portugueses falam galego? Não. Então, falam a mesma língua? A resposta já não é tão clara. Galego e portugués são o mesmo diassistema, mas a questão de serem a mesma língua já é algo que ultrapassa a linguística e entra na sociologia e mesmo na política, porque, isto é incrível, há quem cria línguas por decreto (como acontece com o eonaviego nas Astúrias, feito “forma linguística” pelo governo regional).

A dias de hoje, o galego-português não é uma língua. Isto é, não está reconhecida como tal. Mas isso não quer dizer que não o possa estar no futuro, de facto ouve-se cada vez mais a reclamação de o galego-português ser de facto uma língua. Ninguén nega a relação estreita que existe entre galego e português, nas origens uma só língua, mas que por causas históricas perfeitamente conhecidas se foram separando. Isto dá lugar a duas interpretaçoes: as daqueles que dizem que o galego e o português ainda são uma língua e a daqueles que o negam.

Porém, se os galegos não falam português nen os portugueses falam galego, o que é que falam? A resposta é galego-português. Pois bem, nesse caso, será preciso oficializar uma lingua que se chame galego-português (ou como queiram chamá-la). A realidade agora é que o portugués é uma língua estatal e internacional perfeitamente fixada, enquanto o galego é uma lingua regional ameaçada. Não posso negar as minhas simpatias por uma postagem do Carlos Callón sobre a pervivência do galego e a sua relação com o portugués no seu blogue e também no Xornal de Galicia.

Vou recolher uma pérola do Carlos  (e não o digo ironicamente) que vale a pena ter em conta:

Cando a normativa do galego ofreza dúas solucións, usa para o estándar aquela que se aproxime máis ao sistema lingüístico ao que pertence: o galego-portugués ( posíbel, Galiza, até…). A existencia do portugués como idioma normalizado foi e é un fecundo recurso para que o galego non perda a súa personalidade pola influencia omnímoda do español. Que a lusofobia tan presente no noso país (e que non deixa de ser outra cara da galegofobia) non nos confunda: o portugués é unha fonte limpa da que bebermos.

Que razão tem lá o Carlos.

Mas não posso deixar de comentar que a postura oposta, a que nega que galego e português e galego são linguas oficiais independentes (e que curiosamente é a postura oficial), sim usa a unidade galego-portuguesa quando tem que justificar que o galego é útil. Portanto sim falam de que é uma lingua que permite a comunicação com mais de 250 milhões de pessoas do mundo. E então? Então, nada, porque vem o silêncio tingido de ambiguidade.

Nesta altura da vida, quando um é ciente de que as línguas non estatatais estão todas condenadas a morrer antes ou depois, causa pena ver que a alma de tanta gente se converta numa arma política, porque é o que, ao final, significa a língua.

E agora vejamos o outro domínio ou diassistema, o vizinho: o asturo-leonês.  Neste caso topamos duas línguas mais ou menos estandardizadas: o asturiano e o mirandês. Até aquí de acordo. Mas a seguir, também a política joga um papel preponderante. Para alguns, os mirandeses falam asturiano, isso -segundo eles- está fora de discussão. Portanto, a discussão não existe -também segundo estes iluminados-: o asturiano é uma língua que ocupa o dominio asturo-leonês. Isto, assim dito, é falso. Porém, também não existe uma lingua asturo-leonesa. Isso não envolve que não vá existir (como também pode acontecer com o galego-português), mas a dias de hoje, existem duas línguas nesse diassistema e muitos dialetos (bom de facto, já quase nenhum, porque o seu grau de conservação é mínimo, infelizmente e com tudo o que isso significa para a diversidade cultural).

Curiosamente os mesmos que falam de que o asturiano é a língua de todo o dominio asturo-leonês (entendem a necessidade de a língua ser grande), são os mesmos que negam que o eonaviego, o galego asturiano, é galego. Muitos aceitan o de galego-português (aceitam o que é uma realidade científica), mas negam a essência do idioma, sempre por motivos políticos que tentam tingir de linguísticos. Para acabar com a discussão, o parlamento asturiano estabeleceu que o galego asturiano é uma variante linguística do Principado, distinta do asturiano (1998), mas não disse de que língua era variante, embora de facto a convertesse numa língua independente. Já se sabe que o que digam os deputados é palavra de deus. E não há dúvida de que entre eles abundavam os catedráticos de linguística. Não quero deixar de recolher umas minhas palavras no jornal Asturnews quando me perguntavam sobre a “estandardização” do eonaviego, um assunto sobre o que já parei de falar há anos, mas que daquela surgiu. Contudo, não digo nada que não tivesse dito antes:

Imaxe do xornal en liña Asturnews

En cuantes al eonaviegu, bien, pues si la estandardización del asturianu ye deficiente, la del eonaviego ye incalificable, pero nun ye esa la cuestión, la cuestión ye que col eonaviego se xuega na fase más baxa del “dividi y vencerás”. La cuarta llingua internacional, que cuenta con más de 250 millones de falantes, el gallego-portugués, independízase n’España y sal el gallegu. Depués, el gallegu n’Asturies independízase y sal el “gallego asturiano”(sic). Pero en llegando a esti estremu, dalgún yá tará pensando en dividir la fala d’Ibias en dos y… Ye ‘l resultáu d’usar la política pa xestionar llingües. Otru exemplu graciosu -anque tráxicu- ye aquel de dicir que l’eonaviego se llama “fala”. Maxinái esti diálogu en castellán: «¿Cómo se llama el habla de aquí?”, “Sus habitantes le llaman “el habla”. “Ah, interesante, un habla que se llama “el habla”». Más científico nun pue ser, como se ve.

Exemplo de pantomima.

E enquanto estas lutas estúpidas continuam, o galego, o asturiano e o mirandês morrem sem remédio. Morrem lentamente, morrem de silêncio (porque precisamente, o que mata uma língua é o silêncio dos seus últimos falantes). Galego, asturiano e mirandês, línguas que foram alma e essência de povos, vão caminho do esqueço.

Todas três, e outras mais, são línguas que amo (dixera eu naquela entrevista que «pa min ye fácil namorase de les llingües»), mas não sei por que destas línguas pequenas como amiúde digo, ainda mais. A extinção dos idiomas é um desastre, como o é a extinção dos animais e das plantas; porém, o que realmente torna mais triste este final é que alguns ainda queiran luxar estes momentos com ideias da caverna, que não são mesmo dignas dos primeiros cromanhões.

Para concluir, farei minhas as palavras de Fernando Pessoa, obviando o nome da língua portuguesa, quando dizia: «A minha pátria, é a língua[…]». Nesse sentido, eu sou afortunado demais porque sou polipátrida (perdão pelo palavra) e além disso levo todas as pátrias em mim, em qualquer recanto da Europa.