Quando um dá uma vista de olhos para as enciclopedias e às páginas estatísticas que recolhem o número de falantes duma lingua, convém estar muito atento, porque contar falantes duma língua não é como contar gente que tem perfil no FaceBook ou que se declara amante da cerveja.

Há determinados casos em que definir o que fala a gente é complicado. Ou talvez o complicado não seja definir o que fala a gente por un lado e escreve por outro, mas qual a relação que existe entre o que falam e o que escrevem.

O caso mais significativo disto que eu conheço é o árabe. Existe um tremendo sarilho acerca da natureza desta língua. Em teoria é a lingua oficial de mais duma dúzia de países em África e Ásia, mas essa língua oficial tal como se escreve não a fala ninguém. Ou dito doutro modo, não a falam no 95% dos seus momentos vitais.

Por quê?

A língua escrita árabe, chamada árabe clássico, é uma lingua padronizada nos finais do século XIX, nomeadamente por inteletuais egípcios e do Oriente Próximo. Tal língua tenta “modernizar” o árabe coránico, que é a lingua original do Corão, tal como foi redigido no século VII e imediatamente seguintes. Contudo, a modernização não foi excessiva. Ora bem, se atendemos para o facto de que o árabe falado desde o século VII não cessou de evoluir, encontramo-nos com que a sua corrida para a diversificação foi alcançando níveis completamente normais desde o ponto de vista filológico. A diversidade dos falares árabes entre si é tão enorme como  a dos falares românicos, eslavos ou germánicos.

A diferença jaz em que na Europa esses falares se independizaram, deixaram de ser dialetos, para se tornarem línguas, mentres que no Mundo Árabe tal independência não se deu. Imaginemos que na Europa românica o latim fosse a única língua escrita mentres que os falares del derivados não são máis que formas orais, com expressão escrita mínima. Mais ou menos essa seria a comparança com os falares árabes, diversos entre si mas com uma só lingua escrita que não se fala e que, às vezes, fica muito longe da fala cotiã.

Por isso, é normal que o árabe falado em Marrocos, o derdja, seja incompreensível no Chade ou no Sudão, do mesmo modo que a fala de Líbia é incompreensível na Síria. As falas de Egito, Jordánia, Palestina e Síria são doadamente compreensíveis entre si e, de facto, ficam menos longe do árabe clássico do que as falas do norte de África.

Contudo, o árabe falado foi abrindo-se caminho durante o século XX. O árabe egípcio d’O Cairo, o cairota, é conhecido em praticamente todo o mundo árabe mercê aos telerromances. Este árabe usa-se muito na televisão egípcia, cujos programas são depois exportados para toda a arabofonia.

Existem textos escritos en árabe egípcio, mas são relativamente poucos comparados com o que se escreve em árabe clássico. O árabe escrito é só um em todo o mundo árabe, como já indicámos. Ouve-se na televisão (na maioría dos programas), usa-se na escola nas salas de aulas, mas não nos pátios e serve para dar conferências. Porém, algo está a se mover também aqui, porque já foi aberta a página wikipédia do árabe egípcio que o considera uma língua independente, fenômeno muito interessante e que, a meu ver, é um reflexo de democratização

Portanto, quando um estrangeiro aprende árabe, aprende árabe clássico. O problema é que depois não lhe serve para se comunicar pela rua, porque soa ridículo. Infelizmente são poucos os cursos de árabe falado. De facto, quem estudar árabe, deveria aprender “dois árabes”, o escrito e o falado do lugar onde for.

Se me perguntam por que o árabe clássico se mantém con tanta força, a resposta não é singela. Existem motivos religiosos para a língua se manter assim, embora, como já dixe, o árabe clásico não seja o árabe coránico. Doutra banda, o árabe clássico precisa também duma revisão, porque não se está a adaptar tan ben á modernidade como outras línguas – rever a lingua poderia parecer unha heregia!

Eu recomendo, daquela, aprender as duas formas do idioma (ou atendendo para o que dizem na Wikipédia egípcia, os dois idiomas) a quem se queira dedicar a este idioma. Não lhe será tão complicado aprender entrambas. O árabe falado pode usar-se com alfabeto latino – outra heregia, mas de facto faz-se – para o seu uso, por exemplo, nos bate-papos. Além disso, recomendo a aprendizagem do árabe egípcio por ser o mais internacional. Lembro ter-me comunicado com mulheres marroquinas analfetas mercê ao árabe egípcio, e tudo porque elas eran devoradoras de telerromances pela tevê!! Aliás, como já comentei, o árabe egípcio é perfeitamente compreensível por todo o Oriente Próximo.

Wa ligaya naltaqi marra tánya, ya aśháb. Batamanna an illuga dí hatkún mofída 3ašánkom. Ma3 saláma.

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