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Uma das coisas que pior se suportam nesta vida são as línguas e as leis, mas parece que é uma obsessão que as leis decidam a natureza duma língua. É bem sabido que a política -que se manifesta através das leis- faz e desfaz como lhe interessa, bem amiúdo sem atender para a natureza real dos idiomas. Infelizmente, os idiomas tornam-se armas por motivos políticos. Que ironia aquilo de usar a palavra como arma, a poesia como arma, que dizia o poeta (concretamente: a poesia é uma arma carregada de futuro). Bem, de futuro não sei, mas de intenções ruins sim que está carregada. E claro, quando alguém depois inventou o da política linguística para fornecer uma morte doce às línguas pequenas, chegámos ao cimo da crueldade, isto é, intubar a língua agonizante mas sem perspectivas de a sandar.

Já citei numa postagem anterior como o parlamento asturiano criou uma lingua a partir duma fala, o caso do eonaviego, o galego das Astúrias, elevado à categoría de idioma por decreto. Medo tenho dos políticos que jogam a linguistas, porque daí a jogaren a deus, há um passinho. Em qualquer caso, a lei em questão não vai fixar nada, porque os autores eonaviegos que são só eonaviegos teriam sido igualmente felizes dentro desse seu relógio de areia que esgota inexoravelmente o seu sábrego com ou sem lei.

Existem, porém, casos muito mais sérios. Para mim um dos mais abraiantes é o do antigamente chamado servo-croata. O que em 2001 era uma língua, em 2011 são quatro. Cumpre perguntar-se como é possível isto. Ou os falantes de cada uma das variantes concordaram fazer evoluir cada um a sua língua à velocidade do raio, com mais celeridade do que nunca aconteceu na história da humanidade, ou bem os políticos decidiram que onde havia uma agora há quatro línguas diferentes. Prémio, a resposta correta é a segunda.

Como é possível? Para os senhores políticos da ex Iugoslávia não bastava que cada país tivesse a sua independência (coisa muito respeitável), mas além tinham que ter uma língua própria, uma língua nacional. E aqui já vamos entrando em matéria: língua nacional.

Serbo-croata segundo a wikipedia

A língua do vizinho não podia converter-se na língua oficial. Isso não. E que culpa tinha o vizinho de falar a mesma língua? Pois como não se podia obrigar o vizinho a mudar a sua língua, muda-se a denominação da própria -insisto, apenas a denominação- e cria-se uma língua nova. Assim de fácil.

O servo-croata era un idioma interessante porque se escrevia com dois alfabetos: o latino e o cirílico. Os croatas antes e agora usavam o latino, os sérvios principalmente o cirílico, mas também o latino (o sérvio também se escreve em latino!)  Mas o que é que acontece então? Que quando o sérvio se escreve em latino é preciso ser um especialista para encontrar as diferenças entre sérvio e croata. E já nem digamos entre sérvio, croata, bosníaco e montenegrino (este foi o último, pelo de agora, que esgalhou como língua independente).

Portanto, todos estes idiomas são línguas oficiais dos seus respetivos países. Porém, noutros estados as coisas complicam-se por outros motivos.  Na Suíça ou na Bélgica há mais duma língua oficial do Estado, portanto não há uma língua única. No caso belga há duas línguas co-oficiais, no caso suíço quatro sobre o papel, mas de facto funcionan três. Estes dois estados não têm uma língua única, nem sequer uma língua comum.

Outra coisa son Estados como Espanha, Portugal, França, Reino Unido, Alemanha ou Chéquia que sim tenhem uma língua única estatal. Esta língua única estatal não é a língua única falada, ainda que seja a língua maioritaria. Soa confuso, mas não o é tanto.

Vamos analisar brevemente o caso espanhol. A lingua oficial do Estado é o espanhol, que é lingua comum. O facto de ser língua comum não significa que o seja à vontade, uma língua pode chegar a ser comum por imposição ao longo dos séculos (na realidade é quase sempre assim). Ora bem, a língua comum não é a língua única. Em Espanha, como em França ou em Itália, existem outras línguas, portanto não há uma língua única.

Se agora se entende a diferença entre língua comum e língua única, que alguém me explique por que em Espanha desde há uns anos um grupo de entusiastas culipensantes® (tenho a patente da palavra!) pretendem que a língua comum se torne a língua única?

A coisa é ainda máis complicada quando saltamos para a União Europeia. Nesse embrião de Estado (oxalá!!), não existe uma língua oficial (e menos ainda uma língua única). Oficialmente todas as línguas oficiais estatais são co-oficiais na União, mas de facto inglés, francês e alemão são linguas “mais oficiais”, se calhar “quase-oficiais”. Precisamente o que o grupo de culipensantes® vê como indignante, o desprezo ao espanhol neste âmbito, é o mesmo que eles fazem “em casa” com as outras línguas históricas (e nem só eles, os italianos vivem-no igual). Provavelmente o inglês vai-se converter na língua oficial europeia. A mim não me parece nem bem nem mal desde que as línguas próprias sigam vivas e tenham um státus legal que garanta a sua sobrevivência. Ora bem, o que sim que farei será rir às gargalhadas quando o culipensante® espanhol de turno chegue a Praga e torne a insistir: “A mí en español, ¿eh?”