Burro mirandés a viver como un rei

Lembro que numa dessas manifestações de culipensantes que diziam defender o bilinguísmo na Galiza (é dizer, a liberdade de escolherem entre falarem espanhol ou castelhano), um cretino superlativo ia disfarçado de vaca com um cartaz que dizia: «El gallego solo sirve para hablar con las vacas». Como se duma iluminação se tratar, anos antes eu escrevera um conto em que as vacas também apareciam como protagonistas e uma das personagens daquela história já replicava aquele  cretino, porque as vacas, cumpre dizê-lo, são mais inteligentes do que muitos humanos.
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Evidentemente as vacas entendem o galego. Mas se houvesse que aplicar alguma língua como propriedade inteletual doutro tipo de animais, eu diria que os burros entendem o mirandês. Não é preciso dizer que os burros, apesar da fama de “burros” que têm, são animais tremendamente inteligentes -e nobres, também, não convém esquecê-lo. Portanto, se os burros falassen, falariam mirandês.
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O fim de semana do 21-23 de agosto foi um tempo que fica gravado na minha memória dum jeito muito especial. Foi uma semana de encontro com os amigos nas Terras de Miranda onde galego, português e mirandês se misturaram harmoniosamente, junto com o checo, que por razões familiares aparecia de quando em vez, e até o italiano, o qual já tem provocado formosíssimos híbridos como “quel rapazzo che viene”. É espectacular o transformar o rapaz galego num hipotético rapazzo italiano, porque ademais a semelhança acústica con ragazzo é mais do que evidente.

Além de comermos umas postas mirandesas  espectaculares, comemos bacalhau com natas que não tem desperdício. Mas a nossa  estadia em Miranda nesta ocasião estava justificada pola minha participação num encontro de blogueiros mirandeses. Desenvolveu-se num local  único: a capela da Nossa Senhora do Rosário (Nuossa Seinhora de l Rosairo), com uma  imagem de São Marcos com cornos que é genial (e certamente com uma lenda  trás de si bem interessante). Naquele recinto, disse o meu grande amigo Amadeu Ferreira que as línguas são uma coisa sagrada, portanto falar delas naquela  igreja era o que correspondia. Não posso concordar mais. Desde aquí, o meu  agradecimento ao Alfredo e ao Francisco e ao Alcides Meirinhos pela magnífica  organização daquele evento. Foi bem bonito descobrir como o mirandês cresce na  blogosfera. Falou-se de até 53 blogues em mirandês a dias de hoje, o qual é uma  cifra respeitável, que segue a se incrementar. Foi emocionante ver gente muito diversa  interessada nos blogues em mirandês, porque é uma língua felizmente não  politizada, uma língua que se tem a si própria como centro, sem controvérsias  políticas arredor (é, certamente, o único caso de lingua “pequena” que conheço  que não seja usada como arma ideológica).
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Convém sinalar que as placas das ruas estão em mirandés e português por todo o Concelho. Cresce o número de livros publicados e, como colofão a um ano bom para a língua, no próximo 17 de setembro vai-se celebrar o primeiro dia da Lingua Mirandesa. Porém, esperemos que todo isto não seja como já acontece com outras línguas pequenas, a mortaja antes do seu enterro. Conheço línguas que já foram levadas a museus, portanto, atenção, que o mirandês não passe a engrossar a listagem de linguas soterradas a cujos pés se têm erigido bonitos monumentos. Infelizmente, a situação do mirandês não é tão boa como caberia esperar, perde falantes, como todas as línguas não-estatais, e a presença de placas das ruas em bilingue não pode dar uma falsa imagem da realidade.
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Alguém disse que a cada vez que se perde uma língua, desaparece com ela uma concepção do mundo. Esta globalidade brutal está a matar a diversidade. Já dixe nalguma outra ocasião que eu não sou quem de convencer ninguém para usar uma língua pequena, porque provavelmente não ganhará dinheiro com ela. Só posso afirmar desde a minha própria experiência que uma língua como o mirandês me fez ganhar amigos para sempre. A ligação com as pessoas também se estabelece através das linguas. Há amigos meus com que não posso falar noutra língua que não seja o galego, porque sempre falamos nessa lingua. A língua, por tanto, veicula as relações humanas, pensar portanto que as línguas só servem para a comunicação é como afirmar que um gelado só serve para alimentar.
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I yé por esso que la muorte de l mirandés, cumo la muorte d’outras lhénguas pequeinhas será ua tragédia silenciosa. Ls burros mirandeses, ua raça única, special, que acompanhou la giente ne l sou zambolbimento al lhargo de ls anhos, ficaran solicos quando la lhéngua mirandesa zapareça. I acho que tamien las bacas galhegas ficaran solicas quando la lhéngua galhega séia un produto de museu.
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Pula amizade, pula bida, pur esses momentos de risos antre amigos (lhembras, ó André, “a tecnologia mirandesa”?), falemos, bibamos las nuossas lhénguas. Até brebe, Tierra de Miranda.