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Há poucos dias, mantive uma conversa com o meu amigo Xurde sobre a situação das línguas pequenas (insisto que isto de pequenas é uma mania pessoal e que gosto de chamar assim às línguas não estatais). Ele insistía no seu optimismo sobre a sobrevivência das nossas línguas. Por minha parte, comentava-lhe que eu, porém, confirmo o meu pessimismo sobre tal argumento.

Alaquàs (València)

Precisamente, entre a quarta-feira 9 de setembro e a quinta 10 estive em Valência a participar no 26 CILFR, evento em que eu, como romanista, gosto de participar sempre que lhe for possível. Tenho que dizer que fui para lá com aquela conversa de bate-papo na cabeça, porque predizia o que ia encontrar em Valência respeito ao valenciano. Se calhar, fiquei curto.

Passei a noite en Alaquàs, uma das cidades periféricas de Valência. Para perguntar pelo hotel, tentei já usar o catalão com uma rapariga, que, logicamente, me respondeu en castelhano. Tentei ainda de novo com o recepcionista. Mesmo resultado. A coisa pintava complicada. Decidi dar uma volta pela povoação. Era festa, estava tudo fechado. Porém, os cartazes municipais estavam todos em valenciano. Impressionante. Toda a cartazaria municipal, nem só as placas das ruas, estava en valenciano. Infelizmente, na rua desesperava ouvir valenciano. Polo meu caminho para ao centro, senti falar árabe sírio -era sírio porque reconheci um claríssimo šu biddik (=que queres?) dum pai à sua filha-, alemão -até ali chegavam os turistas-, inglês -mais turistas-, e chinês -havia bem deles, e mesmo jantei num restaurante chinês. E tudo isso até que ouvi dizer a alguén: “Hui és festa, està tot tencat”. Foi a primeira frase que ouvi dizer naquela vila em valenciano. E quase a única, porque ouvi bem pouco mais.

Tomei aquele “hui és festa, està tot tencat” como uma metáfora. Vi que a gente mantinha as suas festas tradicionais, que gozava do ambiente. No entanto, não precisavam do valenciano. Para que? Eu não seria capaz de lhes dar uma resposta (e ninguém ma pediu, sinceramente).  Voltei a lembrar o meu amigo Xurde. Mágoa que não estivesse ali. Não sei o que teria dito.

Também pensei nessa qualificação de “língua própria”. Justamente lá há um problema. Qual é a língua própria de Lisquàs, ou de Valência? Para a gente normal da rua, é-o o castelhano maioritariamente. E segundo passa o tempo, é-o ainda mais, e nem só em Valência, é-o na Catalunha, no País Basco, nas Astúrias ou na Galiza. Figuro-me que antes se identificava a língua tradicional com a língua própria. Aos dias de hoje não é assim. Para a imensa maioria da gente com que me cruzei naquela povoação, a língua própria é o castelhano, a língua tradicional -a dos avós, para nos entender- é o valenciano. Outra geração, outros tempos.

Estive muito filosófico naquele serão valenciano. Não apreendi nada novo, frustrei-me, se calhar, um bocadinho mais. Jantei, como já disse, no chinês, depois fiquei a ver a tele en alemão no hotel. No outro dia, no CILFR, decidi de repente que ia falar em galego, embora trouxesse tudo preparado em castelhano. Por enfastiar? Por dar testemunho? Por que me veio a vontade? Não faço ideia, talvez por tudo isso junto. Reconheço que me saiu um impulso de rebeldia, testemunhal, que deixou tanta pegada na sala como a última pinga do café que me caiu na camisa e que já está na lavadora.

Porém, já de volta em casa, há algo que me atira poderosamente a atenção e que para un filólogo como eu tem o seu interesse: por que é que os valencianos de língua materna castelhana falam o espanhol com sotaque de Madrid? Se alguém tiver uma resposta para isto, por favor que mo faça saber.