Os camones: um estereótipo?

Hoje estava frio em Praga. O clima é uma dessas coisas a que eu não me acostumo nesta cidade, neste país. Quando vim de Madrid, tínhamos uma temperatura ainda própria do verão, porém, aqui o outono antecipou-se. Mas a friagem não desencoraja os turistas. Esses são uma casta que cada vez se torna mais resistente ao clima; são um vírus humano aparentemente inofensivo, mas que é imune à cultura. Se calhar, vão dizer-me que estou a falar dos turistas como uma praga. Pois é, os turistas são uma praga em Praga (lindo jogo de palavras apenas possível nesta língua). Por acaso são todos os turistas iguais? Com certeza não: há-os maus e há-os piores. Não posso evitar sentir-me misântropo com os turistas.

Os portugueses são pessoas muito engraçadas. Eles compreenderam a necessidade de terem turistas no seu país, mas tomam-no com humor. É por isso que estes elementos sem controlo que percorrem as ruas com uma câmara a pendurar do pescoço recembem o nome de camones. O melhor de tudo é a origem desta palavra que me explicou o meu bom amigo André Pocinha: procede do inglês come on. O resto já nem precisa explicações.

Lembro uma outra cidade onde também é capaz encontrar camones: Miranda do Douro. Compram toalhas, têxteis, roupa… Comem posta, gastam… Os mirandeses vivem dos camones, isso é bom, mas os turistas não compram livros, não se interessam pelas línguas dos territórios que pisam. Mal conheço espanhois que falem português (lá em Miranda), mas também não conheço muitos espanhois que falem bem inglês (lá em Praga, onde aliás exigem que se lhes fale em espanhol).

O turismo de massas é uma ameaça. Tudo o que pode ter de positivo o intercâmbio de pessoas no mundo está a se tornar uma arma de destruição massiva das culturas, nomeadamente das culturas mais ameaçadas. É um facto que não tenho verificado, mas tenho a suspeita de que o turismo massivo também tem grande influência na desaparição das línguas e culturas minoritárias.

Na realidade trata-se de massas sem controlo, que vão sem rumo, à procura de não se sabe bem o quê que seja interessante. O que lhe interessa realmente a esta massa do país ou da cidade que visitam? Monumentos? Paisagens? Na realidade visitam o que se quer que visitem. Quando eu voo, escuto o pessoal contar as viagens que têm feito até aos dias de hoje. Trata-se na realidade de uma coleção de visitas por Europa e mesmo além. Trata-se de camones a cumprirem o seu papel de camones, pois é.

Sinceramente, não gosto da maioria destes turistas-camones. Nenhum deles sabe o que é entrar num alfarrábio de Praga e deixar os dedos cheios de pó com dúzias de anos. Quando me perguntam: “O que é que nos recomendas de ver?”, eu digo muito formal: “Vejam tudo”. Porém, eles não entendem que além do que veem todas as pessoas que fazem a visita de Praga, eu quero dizer, vejam o Café Literário, entrem numa livraria e apreendam um bocadinho desta língua esplêndida que tem sete casos. “Sete casos?, Buf que complicado!”. Pronto, é complicado, mas o quê? É que o turismo para ser turismo tem que ser simples?

Há algum tempo nasceu a ideia do turismo linguístico. Trata-se de visitar lugares onde se fala alguma língua interessante, tentando ouvi-la, segui-la, entendê-la, gostar dela. Eu faço este turismo com a minha mulher. Comecei a ir a Miranda do Douro por esta razão, mas agora já vou porque tenho bons amigos lá e porque gosto imenso daquela terra, mas ainda neste verão estivemos em Bautzen/Budyšin para ouvirmos o sórbio, há dois anos estivemos na Ucraina para ouvirmos o russino, e poderia contar mais histórias semelhantes. As pessoas que falam estas línguas não entendem por que o seu modo de falar tem tanto interesse para um estranho do outro extremo da Europa, e quando lhos explicas, entendem-no ainda menos.

Esta é a nossa sociedade. A uniformidade está a acabar com a diversidade. Se calhar, somos as últimas gerações que estamos a viver a diversidade. Nem sei o que ficará para os nossos filhos ou netos. A biodiversidade natural está seriamente ameaçada, mas a biodiversidade cultural também. Portanto, desfrutemos dos últimos redutos desta pequena diversidade, mesmo linguística, porque já se nos acaba. Oxalá o único que esgotasse neste planeta for o petróleo… e os cretinos!