Há alguns anos fiz uma proposta para a escrita do aragonês que resultou muito exótica, porque na altura falava da escrita etimológica e histórica (coquetel explosivo, não apto para moderados linguísticos). Logicamente, a etimologia é uma coisa muito séria para as pessoas, que creem nela quase como numa religião, mas ninguém a pratica. Porém, falarmos de etimologia é coisa muito pouco crível, porque se escrevemos segundo a etimologia latina, nenhuma língua neolatina seria praticamente reconhecível. Portanto, falamos de escrita etimológica moderada, cada língua aplica-a em pequenas doses, para que se perceba a relação genética com a língua mãe, pois é.

Nestas condições, é normal que o espanhol tente distinguir entre <b> e <v> a partir de critérios etimológicos, embora em muitos casos, a ortografia medieval nublasse a vista da antiga polícia linguística; eis os buitre, boda, barrer ou basura que se lhes escoaram. Mas atenção, quando se fez a fixação ortográfica do galego padrão, tais vocábulos passaram a ser escritos com <v> em galego padrão. Giro. Foi assim que a língua recuperava a senda etimológica, a sacro-santa que nos serve de cordão umbilical com a mãe latina.

Mas como a mãe latina não dispunha de sons que nos dias de hoje sim existem nas línguas românicas, houve que inventar grafias novas, como o uso de <gn> para esse som que faz côcegas no nariz ao ser pronunciado (em italiano e francês, porque os catalães optaram por <ny> e os occitanos, prestando-o aos portugueses, por <nh>). Em espanhol foram mais originais e inventaram o <ñ>, que procede de dous <nn>, onde se pôs finalmente o til a um deles (ignoro se ao primeiro ou ao segundo, mistério da filologia para os séculos dos séculos e que me rouba o sono). Tanto é assim, que o <ñ> se tornou na letra símbolo do espanhol (copiada, tudo é preciso dizê-lo, por bascos, bretões, quíchuas e galegos). A todos, agás aos galegos, tanto lhes tem que exista em espanhol, mas em galego soa um bocadinho estranho. Justifica-se dizendo que a sua presença está plenamente justificada porque, precisamente, o espanhol tomou o <ñ> do galego. Pode ser, não serei eu que negue tal possibilidade. Ora bem, se o ditoso <ñ> é o signo mais claro do espanhol ao nível internacional, não dou entendido o que é que faz em galego padrão.

Mas tornemos ao conto da fidelidade etimológica, para o qual não existe conselheiro matrimonial que poda julgar até que ponto é fiel a avandita fidelidade. Na Gramática do Idioma Galego de M. Lugris Freire (1932), dizia-se a respeito do uso dos grafemas <g>, <j>, <x>:

Alguns escritores são partidários de que se empregue g, j ou x atendendo-se à etimologia latina; mas como esta é tão vária, pois a origem vem de x, s, ss, sc, ps, f […], aginha se compreende a grande dificuldade da escrita etimológica.

Este é um critério, totalmente respeitável, sem dúvida. É o mesmo critério que a Academia do Aragonés (xxviii-xxix) aplica ao emprego de <ch> e que, em linhas gerais, corresponde com o <x> do galego padrão. A diferença entre a proposta da Academia Aragonesa e as normas oficiais do galego é que as primeiras são uma tentativa tímida pola ortografia etimológica-histórica. Porém, no tocante ao uso de <j> e <g>, não. Existem justificações como a tradição e a realidade sócio-lingística. São também motivos muito respeitáveis, sem dúvida, mas a quem escreve estas linhas não convencem em absoluto, porque uma língua não tem que ser apenas uma língua, tem ademais que o parecer. E justamente aí é onde as roupagens têm um papel central, porque a olhos nus, tais escritas não deixam de ser uma adaptação do castelhano, idioma por que tenho um imenso respeito, mas que fagocita as outras línguas do país. Por esse motivo, não vale a pena distinguir entre <b> e <v> ou pôr um <h> que não se usa, nem mesmo distinguir entre <j>/<g> no próprio castelhano. Por que nuns casos sim e noutros não?

Além disso, a escrita histórica -não a etimológica- tem um papel importante, porque não se passou de escrever  o latim a escrever o romance tal qual se conhece hoje. Todas as línguas tiveram uma fase medieval que serve de ponte entre as origens e o tempo atual. Isso explica por que muitas línguas românicas empregam esse grafema tão engraçado que é o <ç>, quando realmente, segundo os casos, pode servir <ss> ou <ç>. Mas em certas normas atuais, como o asturiano ou o galego, a escrita histórica não se vê, não existe. É isso que afasta ortograficamente o asturiano do mirandês e o galego do português.  Agora que o penso, é uma jogada interessante: «Do latim ao romance, um salto direto». Se Maquiavelo tiver sido linguista, provavelmente esse seria o título da sua obra cimeira.