Dicionário em linha de sardo

Há poucos dias tive a ocasião de almoçar com dois amigos sardos em Madrid na cantina da minha faculdade de filologia, a Valéria Sanna e o Gianni Garbati. Como não podia ser de outra forma, passámos grande parte do tempo a falar de línguas, nomeadamente do sardo. É uma questão que já chega a ser mesmo obsessiva, o que lhe vou fazer. Porém, nestas ocasiões é quando surgem muitas questões verdadeiramente interessantes e abertas nem só à reflexão filológica, mas também à fantasia. Concretamente falávamos de como se devem introduzir palavras novas no sardo.

Eu comentei que já tinha visto na altura termos como telefoneddu e computadora para esses dous conceitos que penso que nem precisam tradução. O primeiro em italiano é telefonino, pelo qual muitos sardos dizem telefoninu, com a mera adaptação da vogal final; para o segundo, o italiano emprega o anglicismo computer, um de tantos horrores de que gostam os italianos, que daqui a uns anos falarão “itanglish” con tanta privacy, reception, reading e nem sei quantas barbaridades mais que não adataram. Por isso, a presença de telefoneddu e computadora no sardo escrito parecia-me uma excelente escolha que deve marcar o caminho a seguir.

Portanto, a discussão centrou-se na introdução de novos vocábulos. Surgiu, por exemplo, o conceito de elevador, para o qual me dixeram uma palavra proposta noutra altura que, francamente, nem lembro, mas cujo significado era mais ou menos “aparelho sube-gente”. Engraçado, mas inútil. Eu comentei que o mais simple era, precisamente, apanhar elevador do espanhol e do português (elevator mesmo no inglês americano) e adatá-lo em sardo como elevadore, onde, aliás, encontramos que existe o verbo elevare (algum purista diria que não existe em sardo, porque também não existe a befana, mas…).

A seguinte palavra foi a italiana scheda (=ficha), mas aqui estava verdadeiramente complicado. Eu comentei que não fazia ideia de como se poderia dizer aquilo, mas a minha amiga Valéria Sanna, também não. Portanto, deixamos a forma sardizada ischeda. Porém, se tiverem propostas, serão bem-vindas.

Depois chegou o momento doutra palavra muito interessante, a forma sarda do termo percorso. Ela, a Valéria, dixo que adatara o termo patrimonial àndala, que tradicionalmente não é mais do que um ‘sendeiro’. Gostei da opção. Porém, disse-lhe que não seria inconveniente fazer coincidir essa opção novamente com uma forma comum com o português: percursu, porém não porque coincida com esta língua, mas porque é a forma etimológica de que procede também o termo italiano.

Finalmente, falamos de stampare. A primeira opção é a mera adatação fónica do italianismo: istampare. A segunda opção é procurar no resto da România: ES, PT, CT: imprimir, FR imprimer. Bom, então, por que não imprímere em sardo, com um lindo particípio irregular (os particípios irregulares dão ares de grandeza) impressu.

E até aqui chegámos porque um um almoço não dá para mais: dois pratos, sobremesa e café, não está mal. Depois disso, acho que tirei várias conclusões: primeiro, que o sardo tem que tomar mais formas do resto das línguas irmãs  românicas vizinhas; segundo, que não deve ter medo disso (não é nem pecado nem ilícito e todas as línguas criam palavras novas para crescerem como línguas); e terceiro: que uma cantina é, se calhar, o melhor local para inventar palavras.