Se algum de vocês vier à minha casa, encontaria que nas prateleiras tenho dúzias e dúzias de guias de conversa, com as combinações mais diversas. Tenho por exemplo guias de conversa de línguas tão remotas como o suahíli ou o urdu. Um dos últimos que comprei foi um guia sobre o persa, baseado na fala de Teerão (isto é importante, porque não todas as guias se baseiam em falas concretas).

Porém, existem também guias muito interessantes -e eu, de facto, tenho alguns- que não se baseiam na língua padrão, mas na língua falada na rua. Isto é muito importante quando se trata do árabe, porque o árabe clássico não se fala (bom, é questão de gostos, há com certeza quem sim o fala, mesmo a se olhar no espelho pela manhã). Existem guias de árabe clássico (pouco útil, a meu entender), mas existem também guias do árabe dialetal. Eu tenho do árabe marroquino, do árabe egício e do árabe levantino (basicamente sírio). Mesmo tenho um onde se recolhem vários dialetos árabes (marroquino, tunesino e egício). Francamente, encontro muito interessante fazer comparações das orações oferecidas, porque há diferenças apaixonantes para quem gosta das línguas.

Porém, para além da minha paixão polas guias de conversa (quero dizer que o último que comprei foi no aeroporto de Francfurt e trata-se de uma guia das línguas da Europa oriental, uma coisa espectacular), eu uso alguns deles para a minha apreendizagem de idiomas.

Pois é. Eu apreendo muito bem as línguas com os guias. Isso não quer dizer que seja o único meio para aprender línguas, mas quando se têm uns mínimos conhecimentos gramaticais da língua, os guias de conversa são um excelente meio de apreendizagem. Por isso, quero reivindicar desde aqui o seu emprego como ferramenta para o ensino de línguas.

Nesse sentido, parece-me admirável como os checos souberam tirar proveito deles. O guia comum, que se encontra em todas as lojas, deu passo a um guia um bocadinho mais especializado, melhor tratado do ponto de vista didático, com a classificação dos “atos da linguagem” (é um palavrão que apenas classifica essas funções como pedir permisso, convidar, lamentar-se, dizer a um gajo que é um borrego, insultar a sogra de alguém, perguntar se se pode pagar com cartão -ou melhor não pagar-, expressar medos ou dar opiniões, embora com atenção para não ofender o polícia do trânsito num país estrangeiro).

Precisamente nos cursos que estou a preparar mesmo das línguas pequenas, estou a criar este segundo modelo de guias de conversa didático (não esqueço pôr esse titulinho de didático). Foi justamente com as línguas pequenas que encontrei surpreesas. O único guia de conversa de galego padrão que tenho visto tem a combinação galego-alemão (e é muito fraco, sinceramente). De catalão há muita coisa, em combinações nem só com o espanhol, mas com inglês, alemão, francês, italiano, francês… e checo, que apareceu há muito pouco tempo. De basco apenas tenho um basco-espanhol, mas acho que deve haver mais algum.

Os guias de conversa têm a vantagem de serem pequenos é há mesmo alguns que têm áudio. Eu levo-os comigo para toda a parte, desde o comboio até à casa do banho. Graças a eles apreendo idiomas comodamente, apreendo a expressar que tenho uma roda furada, que gosto das lagostas fritidas, que quero fazer um bilhete de volta mas não de ida…

E vivam os guias de conversa! Portanto, se quiserem fazer-me um presente para o meu aniversário, procurem algum guia exótico, mas por favor, não procurem combinações como chinês-gótico, porque não ia perceber nada.

😉