Recentemente, em Madrid, durante o ato de clausura dos cursos de língua sarda, uma pessoa do público reclamou a língua sarda como elemento de identidade do povo sardo. Disse-o todo entusiasmado, quase fervorosamente, num desses momentos em que coisas tão íntimas como a língua se tornam objetos sacros. É pena que todo o debate sobre a língua sarda se desenvolvesse em italiano, mas para além disso, todo o resto foi um ato bem emotivo. Mas tornando para a questão do binómio língua-identidade a que fazia referência, aquela pessoa do público, eu não hesitei em lhe responder que me parecia errada a sua visão, que a língua não era na maioria dos casos um elemento de identidade dum povo. O meu interlocutor olhou-me surpreendido, como se não esperasse aquela resposta precisamente de mim, uma pessoa tão comprometida com o sardo e com outras línguas em situação crítica.

Precisamente a minha resposta centrou-se emn demostrar que a língua não é signo de identidade en muitíssimos casos. Pus-lhe os dous primeiros exemplos que me vieram à cabeça: os argentinos, que falam espanhol sem se sentirem espanhois, e os brasileiros, que falam português sen sentirem portugueses. Porém, posteriormente, já fora do salão de atos, mais exemplos acudiram à minha mente: os suíços que têm quatro línguas sentem-se povo. Mas voltemos à Sardenha. A língua sarda pode ser elemento identitário do povo sardo?  Ou, polo menos, concentrar a identidade do povo sardo na sua língua? Pareceria-me errado, sinceramente. Por que? Porque a Sardenha, além do sardo, tem mais línguas próprias: o corso (chamado galurês), o sassarés, o catalão (no Alguer) e o tabarquino (a variedade local do genovés). E logo? Pode o sardo ser elemento identitário fundamental para muitos sardos que não têm o sardo como língua materna? Acho honestamente que não. Significa isso que os sardos não têm identidade como povo? Seria uma estupidez negá-lo. Portanto, um sardo que não fala sardo, é menos sardo? Evidentemente, também não.

Também naquele ato comentei algo que àquele meu interlocutor soou quase a blasfémia (digo-o por como olhou para mim): a língua não pode ser uma arma política. Adicionei que é uma tentação muito grande não usá-la assim, mas, a longo prazo, o uso politizado, extremadamente politizado diria, do idioma torna-se contra a língua que se pretende defender. E estou convencido disso.

Muita gente tem-me dito que como eu dou aulas de galego tenho que ser nacionalista galego. O mais engraçado é que não sou sequer galego. Mas como também dei nalgum momento aulas de catalão, asturiano ou sardo, algo de nacionalista dessas terras hei de ter. Á pá, que coração tão grande o meu. Pois não. Ignoro se sou criatura estranha que ama as linguas per se. Se calhar sim… ou não. Porém, o que me parece um erro, seguindo com esta ideia do uso politizado das línguas, é mesmo a denominação que às vezes se faz delas. Distinguir entre línguas minoritárias, minorizadas, ameaçadas, discriminadas, regionais, etc pode ser, além dum labirinto de ideias, uma situação crítica segundo o contexto em que um fale de língua minoritária ou minorizada. Há muito tempo que venho falando de línguas pequenas. Quiçá porque falar em línguas pequenas tem um sabor muito humano, mesmo íntimo. Sei que não é uma denominação científica (nem o pretendo), mas o valor sentimental das línguas leva-me a contemplar estas línguas não estatais como seres vivos que estão no mundo e que, talvez, podem deixar de esta daqui a uns anos. O valor do pequeno, do miúdo, é, para muita gente, algo imenso, até diría intenso; para mim também. Por isso, falar do galego, do sardo, do asturiano ou doutras línguas como línguas pequenas é algo para mim emotivo.

Temos de proteger as línguas pequenas. Pois é. E haverá que usar a política, infelizmente sim. Porém, que estas línguas sigam a ser património dos povos que as falam, sem terem que ir pintadas ou disfarçadas segundo os caprichos duma parte da sociedade que quer ter a sua exclusividade.

E deixo aqui esta postagem para os meus amigos sardos (e outros que não são sardos) escrita em português. Oxalá algum deles tenha vontade de apreender esta outra lingua. Compartilhar línguas é compartilhar mil maneiras de conceber o mundo, maneiras diferentes e antigas. Em liberdade.