Ontem dia 17 de dezembro dei uma conferência na vila de Torrelaguna, na província de Madrid sobre a internet e a poesia. Como o apresentador do ato falou de mim como poeta multilingue, uma senhora do público, no final do ato, perguntou-me porque é que eu escrevia em galego.

A pergunta entrou-me direta no cérebro e ali fez despertar  aquela outra questão que já tantas vezes me tem surgido: para que serve uma língua menor podendo empregar uma língua maior? Sempre tenho dito que para isto não tenho uma resposta, mas depois de dizer àquela senhora que escrevo em galego porque é língua do coração, comecei a pensar que, se calhar, a resposta à diversidade linguística tem a ver com os sentimentos e que só com os sentimentos é que podemos convencer as pessoas para não deixarem morrer uma língua.

Escrevo em galego -expliquei- porque é a língua da minha família materna. E é para mim língua de sentimentos, à diferença doutras línguas, como o inglês, que é para mim uma língua com um valor nomeadamente económico. Isso foi o que eu comentei na altura e, precisamente, penso que essa pode ser a clave para explicar o valor duma língua menor frente a uma língua maior.

No mundo atual, onde tudo se mede polo valor económico, apreender línguas segue esse mesmo critério. Portanto, a grande maioria das pessoas estudam inglês, francês, alemão, russo… para ganharem dinheiro. À vista disso acudiu na minha ajuda O Principezinho, quando criticava a maneira de valorizar as cousas  própria dos adultos. Lembro aquela passagem quando descrevia uma casa e a encontrava linda porque tinha tijolos vermelhos e flores nas janelas, em vez de a valorizar polo seu preço. Somos assim os adultos. Porém, não todas as pessoas adultas pensam igual. Algumas apreendem línguas como o galego, o catalão, o asturiano, o sardo, o friulano ou o sorábio por outras razões: as razões do coração.

Infelizmente o espírito do Principezinho é que nos falta. Usar uma língua por razões que são invisíveis aos olhos. Não servem geralmente para ganhar dinheiro, nem prestígio (exceto nalguns casos, mas mesmo isso é efêmero, como diria o geógrafo). As línguas menores permitem outra maneira de perceber a vida, de perceber o mundo. Outra forma, não quer dizer que seja melhor. As línguas menores são também astros, como as línguas maiores. Se calhar o seu volume é menor, mas o seu aroma não. Felizmente, igual que o Principezinho visitou asteroides, também visitou a Terra. Quer isto dizer que falar mais duma língua é compatível? Nem preciso responder.

Tenho a sensação de que muitas das pessoas que desprezam as línguas pequenas têm medo. Têm medo que se descobra a sua própria incompetência linguística. Se acabamos com o espírito do Principezinho neste aspeto tão humano, como é o dos idiomas, apenas ficarão cinquenta línguas no planeta. Porém, se o espírito do Principezinho se mantém, continuarão a surgir esses estranhos seres que para alguns são extraterrestres -o Principezinho também o era- chamados neofalantes. E é que os neofalantes me fazem lembrar o Principezinho.

Não tenho razão nenhuma visível aos olhos para justificar por que é tão triste que morram as línguas. As razões são invisíveis aos olhos, mas quem quiser vê-las, poderá facilmente descobri-las se fechar os olhos e tentar cheirar a essência de uma língua que se fala ao seu redor e é tão velha como a tataravó da tataravó da tataravó da tataravó da tataravó e ainda muito, muito mais.

E agora que o penso, os meninos não têm complexos linguísticos, só os têm os adultos… Pensamos demasiado, sentimos pouco. Bom dia, Principezinho.