As pessoas normais podem ter um sentimento profundo, sincero, intenso pela língua que falam. Quando se trata de línguas menores, cuja situação é crítica, na altura muitas pessoas vivemos com angústia a possibilidade da sua extinção. Sempre mantive, e agora não tenho razões para pensar doutra maneira, que as línguas menores estão condenadas a desaparecer. Porém, como aínda estão vivas, gozemos delas.

A língua, como elemento comunicativo, tem muito mais do que o seu mero valor veicular. Não vou falar desses grupúsculos que no âmbito espanhol falam da perseguição do idioma espanhol quando, na realidade, basta sair para a rua e ver que a língua ameaçada não é precisamente a espanhola e que os verdadeiramente bilingues são aqueles que falam a língua própria e o espanhol. Porém, não é desses elementos que quero falar.

Quero falar, no entanto, daqueles que vivem a língua ameaçada como uma religião. Porque esses não são exclusivos de uma área, mas existem em todas. Lá onde tive a sorte (ou a má sorte) de entrar em contato com língua ameaçadas, lá encontrei elementos destes.

Numa sociedade que vive um laicismo mau entendido, após ter recebido uma educação religiosa, a identificação da língua com um deus é algo natural (para eles). Daí que me viesse à cabeça inventar uma palavra para definir tal fenómeno: a verbifé. Muitos dos ativistas consideram-se a si próprios enviados divinos e, num perigoso paralelismo com os movimentos radicais muçulmanos, alguns deles estariam prontos a lançar uma guerra santa contra os infieis. Quem são os infieis? Bem, qualquer um que não pense como eles.

Chega-se a construir igrejas académicas, com uma hierarquia totalmente religiosa. Por vezes, surgem movimentos críticos, heréticos, que ameaçam os privilégios da casta sacerdotal dirigente. A heresia pode vir sob a forma de nova proposta ortográfica ou de mudanças na existente, que seria o mesmo que introduzir mudanças na bíblia.

A verbifé, como boa religião, também procura alianças com os governos, normalmente governos autonómicos. Deles obtém dinheiro e poder, uma quota pequena, mas é poder. E esse poder não se quer partilhar com outros adeptos.

Há, aliás, outros curiosos paralelismos entre a verbifé e o radicalismo islámico: as fátuas e os talibãs. Nalguma verbifé enchem-se os foros de opiniões contra certos elementos. Aí o caso asturiano é o máis interessante. Um sociólogo poderia tirar conclusões fascinantes. Nessa verbifé o inimigo não é tanto o “ateu” (que só fala espanhol), mas o que mantém, como é meu caso, que nas Astúrias também se fala galego. A fátua foi ditada há anos e os fieis seguem os ditados do aiatolá de turno. Porém, os dois fieis que ainda ficam e mantêm a promesa de desenvolver essa fátua, têm que parecer cinquenta. Infiltram-se nos foros e escrevem, escrevem, escrevem, mudando alcumes. Fazem igual que os do Mossad nos foros dos jornais quando se ataca Israel, mas ainda com menos estilo, que já é complicado. Portanto, o grau do fanatismo dalgum destes elementos é infelizmente o mesmo que se vê nos talibãs afegãos, onde a defesa da fé justifica qualquer ação.

É triste que uma língua, qualquer uma, tenha que ter estes elementos entre os seus “fieis”, digamos promotores. Se eles comprendessem que com cretinos assim uma língua não tem futuro, talvez entenderiam que a grande maioria da sociedade ignora a sua mera existência (exceto puntualmente as aparições do papa da verbifé fumando a palavra), talvez dariam compreendido que eles como pessoas precisam três novas vidas para lhe darem sentido à sua triste, ínfima e cinzenta existência.