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San Salvador del Valledor

São Salvador

Há mais de quinze anos comecei a escrever uma série de histórias que refletiam as minhas experiências e lembranças pola aldeia natal da minha mãe. Aquela aldeia, obviamente existe e é São Salvador del Valhedor (escrito à espanhola San Salvador del Valledor).

É lá, naquela aldeia, que eu arranquei a falar galego. Lembro que me senti capaz de o fazer com dezassete anos. Muito choveu desde aquela altura. A minha identidade linguística nascera naquela aldeia. Porém, depois de certo tempo, deixei de passar por ela, de sentir a chuva ecoar nas suas ruas quando caía. A vida passa. Até os meus vinte anos vivi bons momentos de verão em São Salvador, algo inesquecível.

Porém, descobri também que a língua é ainda mais profunda do que um território. Foi então quando compreendi as palavras do Fernando Pessoa que muitas vezes tenho usado para me referir ao meu sentir pola língua sem necessidade de estar vinculado a um território concreto: «A minha pátria é a língua portuguesa». É assim.

Hoje, depois de vinte e cinco anos sem pôr os pés na aldeia, a língua segue a ser a minha pátria. Sei que provavelmente nem reconheceria aquele território onde passei tão bons momentos, lá onde mesmo alguns dos meus parentes ainda moram. Sei que não aturarei ouvir apenas o espanhol por aquelas ruelas e saber que o galego eonaviego, se ainda existe, agoniza nalgum quarto escondido na boca dalgum velho.

Tentei, contudo, fazer uma homenagem àquela aldeia. A aldeia que me acolheu nos anos oitenta do século passado, a que me apreendeu o galego. Essa aldeia ficou retratada no livro A aldeia. Como digo, foi escrito no início da década dos noventa. São três histórias ambientadas na mesma aldeia, cheias de vivências pessoais, de anedotas que me contaram na minha família, de sensações conscientes e inconscientes que passaram pola minha alma. Os diálogos estão escritos em galego eonaviego tal como se falava quando eu por ali andava. Agora, nem sei…

Não quero esquecer. E quero compartir aqueles anos. O livro está aí. Vilaboa, esse lugar idílico que não voltará a existir.

Durante os últimos dias fiz correções do texto. Foram feitas na Chéquia, rodeado de neve, com a língua checa ao meu redor. Isso ajudou-me a lembrar que a vida é muito mais complexa do que parece, que o mundo vai para além dum vale, que lá onde levamos o coração, lá vai também a nossa língua, sem fronteiras.

Espero que gostem do livro. Já foi publicado nos finais de 2011 por Urco Editora de Santiago. Mais uma vez, a vida reinicia.