Recentemente, os manuscritos de um dos maiores génios da literatura universal estão a ser objeto de litígio entre dous estados: Israel e Alemanha. Israel argumenta que tem que ser porque o Kafka era judeu; Alemanha argumenta que o Kafka era escritor em lingua alemã. Porém, postos a argumentar, pergunto-me eu por que a Chéquia não pede também esses papeis, visto que o Kafka nasceu e viveu na Chéquia, ou mesmo a Áustria, pois o escritor teve nacionalidade deste país no seu nascimento.

Para além da polémica acerca de quem tem mais direitos sobre os manuscritos do autor (pessoalmente diria que deveriam estar em Praga, mas se houver de escolher entre Alemanha e Israel, diria sem hesitar que é melhor estarem no primeiro), todo o debate surge por um problema de identidade muito sério e que não foi concordado nos estudos filológicos de hoje: a identidade literária.

Vou continuar com a figura do Kafka porque é, precisamente, a figura mais rejeitada e amada ao mesmo tempo no panorama literário checo. Como é possível? Bom, a questão é que o Kafka produz dinheiro ainda hoje. Quando qualquer turista visita Praga, tem a oportunidade, entre outras muitas, de percorrer a(s) rota(s) de Franz Kafka, que incluem, como não podia ser outramente, a sua casa natal, habitações diversas e, como não, a rua do Ouro ao pé do castelo de Praga. Nesse sentido, o Kafka é um escritor de Praga que, aliás, produz dinheiro. Mas, caso preguntássemos aos cidadãos checos se o genial escritor era um escritor checo, os mais deles vão dizer que não. São incompatíveis ambas as realidades, é dizer, ser escritor de Praga mas não ser escritor checo? Aparentemente não o são, embora pareçam paradoxais. Então, por que é assim?

Vejamos três traços que definem Kafka: praguense, de língua alemã e judeu. Nasceu em Praga mas não é escritor checo porque não escreve em checo, diriam os especialistas checos. Quer isto dizer que é um escritor alemão? Não parece, porque ele foi súbdito da Áustria (daquela a Boémia, portanto Praga, faziam parte da Coroa Austro-Húngara). Como diria um português, “tá complicado, pá”. Porém, a falta de identidade linguo-literária -aparente- do Kafka não é problema para ele ser um dos reclamos publicitários mais importantes de Praga, segundo já disse.

Bom, então, tem isto solução? Pode ser, mas imos enlear isto um bocadinho mais. Assim, vou começar com esta pergunta? Como se define um escritor sardo? Rapidamente muitos dos meus conhecidos sardos dirão que um escritor sardo é aquele que escreve em sardo. Novamente tornamos à identidade nacional com a identidade linguística ou mais concretamente linguo-literária. Ao meu ver, isto é um erro. Não se pode identificar a nação com a literatura. Por essa razão, não existe uma literatura suíça, nem belga. E quando se fala de literatura espanhola, estamos a falar da literatura escrita em espanhol? Parece ser que sim.

Na realidade a explicação é muito mais simples. Quando se fala em literatura espanhola, está-se a falar de literatura em língua espanhola, que abrange qualquer autor que escreva nesta língua, for espanhol ou for latino-americano. Quando se fala de literatura sarda, fala-se de literatura escrita em língua sarda (Grazia Deledda escreveu em italiano mas é cem por cem sarda); quem escreve em alguerês é sardo de nação, mas faz parte da literatura em língua catalã); Kafka faz parte da literatura alemã porque a literatura alemã é aquela escrita em língua alemã (de autores originários da Alemanha, da Suiça germánica, da Áustria ou mesmo doutros territórios europeus de língua alemã).

Digamos que, por economia da linguagem, tendemos a omitir uma parte do conceito. Quero dizer com isto que literatura galega representa na realidade literatura [em língua] galega. É assim de simples. A literatura é literatura, a política é política e os aluados creem que voam, mas para isso eu não tenho explicação.