Amar uma língua não é como amar uma pessoa, ou talvez sim. Quando te casas com uma pessoa, queres mudar certas coisas dela; se não podes, tens duas opções: aceitá-la com os seus defeitos ou mandá-la à merda (sempre depois dum tempo razoável). Bom, com as línguas pode acontecer algo parecido, concretamente respeito da sua vestimenta, isto é, da sua ortografia; há, porém, uma diferença importante, a língua está casada com muitas pessoas, muitas, e então é que se querem impor os gostos pessoais ou, pelo menos, grupais. É algo conhecido como as guerras ortográficas.

Bom, é complicado fazer mudas as vestimentas duma língua. Quanto mais antiga é, mais complicado é mudar nada. Eis o caso do inglês, seguido pelo francês. No entanto, a situação que mais me afeta é a das línguas menores que tiveram uma fixação ortográfica relativamente recente. Nalguns casos, algumas destas línguas causam-me dor de olhos. Como é possível? Pois é.

Primeiro vou-me referir ao fenómeno desde o ponto de vista fisiológico. Uma língua padronizada recentemente pode ter como sistema ortográfico a da língua estatal sob a que está submetida com pequenas modificações. São o caso do asturiano e do galego oficial, cujos sistemas de escrita não são mais que meras adaptações do sistema ortográfico espanhol, no primeiro caso com a inclusão massiva de apóstrofos e no segundo com a inclusão de breves elementos que diferenciam o uso de determinados grafemas e poucos casos de acentuação divergentes do espanhol. O caso asturiano é aquele que tenta esconder a sua dependência absoluta do espanhol com a apostrofação desmedida, de tal jeito que para mim -e isto é algo muito pessoal- a leitura de textos em asturiano com tal quantidade de apóstrofos (e algum outro elemento como vocalizações mágicas de ditongos cultos- me causam dor nos olhos depois dum certo tempo a ler neles). Nom me acontece isso com a língua falada, nunca uma língua me causou “dor de ouvidos”, mas sim “dor de olhos”, como acabo de afirmar.

Entre o caos e a improvisação ortográficos do asturiano e a falsa independência da ortografia galega oficial, prefiro a segunda, porque ainda que é sempre uma adaptação, sim tem uma coerência interna. Outra questão é que isso baste para que as vestimentas duma língua a façam parecer uma língua e não um dialeto, o qual me recorda aquilo de que a mulher do césar não tem que apenas que ser a mulher do césar, mas também tem que o parecer, traduzido: não basta ser uma língua por ter uma norma escrita, cumpre parecê-lo.

É sintomático a quantidade de apóstrofes que são empregados quando se escreve em idiomas como o napolitano ou o siciliano. Marcam a queda de sons a respeito do italiano, não a respeito de si próprios. É uma escrita dialetal, absolutamente dialetal. Precisamente uma das marcas das grafias dialetais é o excesso de apóstrofos, o qual vale também para o asturiano. Não digo que haja que eliminar os apóstrofos da escrita, mas há que os reduzir ao mínimo, ao minimíssimo. Há linguas que não se servem do apóstrofo e sobrevivem. Pode-se viver sem apóstrofos e fazer uma língua culta com palavras completas. A vida não acaba além do apóstrofo, a sério. Aliás, comprovem se depois de lerem um texto cheio de apóstrofos não têm os olhos irritados. A mim acontece-me e não se trata do ecrã do computador, porque me acontece a mesma coisa quando leio em papel.