Ontem, 29 de janeiro de 2011 apresentei em Gijom o meu poemário Café de saudades, onde tive ocasião de me encontrar com muitos amigos. Foi um momento desses que depois ficam para sempre na memória e no coração.

Para além do prazer de compartir versos com as pessoas que vieram acompanhar-me, umas das experiências de que gostei imenso foi de poder fazer da sala d’El Corte Inglés um bucle espaço-temporal em que Astúrias foi o que realmente é: um país trilingue.

Com efeito, durante polo menos um quarto de hora, lá houve um convívio perfeito de galego-português (na sua forma eonaviega), asturiano e castelhano. Os três idiomas coabitaram em perfeita harmonia, sem fascistas dum lado ou do outro, porque as pessoas normais não sentiram naquela sala que as línguas empunhavam armas. Os amigos da Associação de Escritores Noveis conversavam em espanhol com dois amigos escritores e editores que falavam asturiano, ao qual se uniu uma outra escritora em galego eonaviego. E entre tais idiomas houve harmonia, sem necessidade de intérpretes, de acordos escritos, de condições prévias.

Precisamente a escritora amiga agasalhou-me o seu livro de relatos escritos em eonaviego na versão portuguesa. Para além da mudança ortográfica, ela mesma reconhecia que o 90% do texto era praticamente igual. “Alguma palavra é diferente…”, dizia-me ela. Pronto, claro que “alguma” palavra é diferente entre a fala dela na beira do Eu e o português alfacinha. Felizmente é assim. É a diversidade na uniformidade, isso são as línguas internacionais.

Mas tornando à questão do convívio do galego, do asturiano e do castelhano naquela sala, lá niguém teve que usar o Google Translate com o telemóvel para procurar tradução automática. Por quê? Porque é absolutamente falso que uma pessoa de língua espanhola precise de fazer grandes esforços para entender o asturiano ou o galego.  Porém, acho que ainda não inventaram audiofones de interpretação automática para ligar ao telemóvel

Depois, durante jantar, já apenas coabitaram asturiano e espanhol enquanto corria a sidra, as luras, as costelas de porco ou os choquinhos.  É uma mostra mais de que a gastronomia, a literatura e as línguas moram no estômago.