Uma das questões que nos estudos literários ainda não foi resolvida -e, francamente, não acho que o seja nunca- é a de pôr limites aos distintos tipos de criações. Estou-me a referir a qual a fronteira entre um conto e uma novela, ou entre uma novela e um romance.

Esta questão tem grande importância, visto que afinal não se sabe muito bem o que é que um cria. Para além disso, a natureza humana tende a fazer dúzias de definições, às vezes absolutamente divergentes.

Eu sempre disse que sou uma pessoa que gosta de escrever coisas breves. Não gosto dos romances, penso que na minha vida serei capaz de escrever nenhum, mas sim escrevi alguma novela, embora eu me encontre muito à vontade com o conto. Assim dito, parece que se entende o que digo, mas se a questão for formulada dizendo que não me sinto capaz de escrever mais de cinquenta páginas, o que é que escrevo? Contos ou novelas?

Para situar esta minha questão, vou propor este gráfico:

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Entre o nanoconto e o romance há todo um percurso. O nanoconto (aqui sim há mais acordo, não pode ter mais de 140 caráteres). Daí para adiante já é um microconto, cuja extensão máxima para alguns não pode ultrapassar oito linhas, mas para outros alcança uma página mesmo. Portanto, o conto poderia começar arredor duma página e chegar até… dez? vinte? trinta? quarenta? Onde é que fica a fronteira entre o conto e a novela? É evidente que o conto pode ter divisões, numeradas, como verdadeiros capítulos. Aquí já o contínuo é muito ambíguo, a fronteira entre conto e novela é impossível de precisar. A novela pode mesmo ser um só fragmento de narração sem divisões, durante cinquenta páginas; trataria-se já que logo dum conto muito comprido? E vem a seguir a seguinte fronteira, a que separa a novela do romance, visto que a extensão é a que marca a diferença, mas onde, a partir de sessenta, setenta, oitenta, noventa páginas?

A diferença entre gêneros pode ter uma marca estilística. É evidente que o nanoconto e o microcontos têm traços muito específicos por mor da sua extensão. Franz Kafka escreveu microcontos, contos e novelas, não romances. Aliás, os chamados best-sellers são quase todos romances. Grandes romances são clássicos da literatura universal (a começar pelo Quixote e a seguir por Moby Dick, por só mencionar duas mostras). Os subgêneros em cada uma destas formas literárias entrecruzam-se, existem contos de aventuras, mas também novelas e romances; o terror também abrange todas estas formas narrativas; portanto, a temática não influi na aplicação dos limites.

Porém, existe um problema adicional: a terminologia. Em espanhol, por exemplo, a palavra novela refere-se tanto à novela como ao romance em português. Os espanhois têm que empregar amiúdo a expressão novela corta para se referirem à novela. Uma cousa semelhante acontece com o inglês com novel que pode ser especificado como short novel, mas também nesta língua existe short story que não é mais do que o conto, em espanhol também relato. Como se vê, a terminologia também pode causar complicações.

Eu não pretendo resolver nada aqui. Apenas deixo a questão aberta, porque os limites entre as formas literárias é uma questão que cada quem resolve como puder. Quero ainda fazer uma observação: na literatura infantil esta mesma questão tampouco foi resolvida. Porém, o desenvolvimento dos gêneros literários ainda não foi tão profundo como na literatura de adultos.

Quero dizer que embora exista o microconto, mal se começou a trabalhar com o nanoconto, pelo menos no sentido atual. A diferença entre conto e novela na literatura infantil também tem muito a ver com a idade dos leitores. Quanto mais pequenos são os leitores, mais breves são os textos, é evidente. É esta uma questão perfeitamente conhecida, pois até uma idade aproximativa de dez anos, os garotos não leem novelas, mas trata-se de novelas com uma extensão muito reduzida, é claro.

Fiquem aqui estas reflexões. Porém, eu não pretendo pôr limites a algo que não tem limites: a própria literatura.