Hoje quero contar a história de Micael. É evidente que é um nome fictício, mas vamos deixá-lo assim.

A história do Micael é a história dum pequeno punhado de pessoas que estudaram algo que já não se encontra. Chamava-se aquele tipo de estudos filologia. A filologia era uma especialidade um bocadinho estranha, porque se estudavam muitas coi8sas juntas, de língua e de literatura. Era, se calhar, um bocadinho exótica, porque os estudantes de filologia, para além de virarem filólogos (complicada palavra), estudavam coisas relativas à história das línguas que os mais dos mortais ignoravam.

O Micael estudou também filologia. Estudou-a porque gostava das línguas e queria conhecer as relações entre as línguas, as suas histórias e como se relacionavam entre si. Teve que compaginar o serviço militar com os estudos (imaginem que na altura ainda se fazia o serviço militar obrigatório, portanto sim é antiga esta história e o Micael tem já uns aninhos, agora quando estou a narrar esta história).

Acabou os seus estudos de filologia e uma mão e uma voz invisíveis disseram-lhe: «Já és filólogo». Bem podem imaginar a alegria do Micael quando se sentiu filólogo pela primeira vez. Decidiu dedicar-se a estudar realidades linguísticas que conhecera de livro, que, se calhar, ainda existiam na realidade. Mas a realidade, precisamente, era que aquelas realidades descritas nos livros havia um século já não existiam ou ficavam apenas uns restos miseráveis, desprestigiados, moribundos.

Mesmo assim não se desencorajou. Visitou uma área dialetal de alto interesse filológico para estabelecer os seus traços e, segundo os seus conhecimentos adquiridos na faculdade, classificou-a do grupo L, secção B, subsecção R. Porém, aquela classificação não causou boas vibrações entre vários fregueses duma taverna nacionalista da capital regional, que diziam que a área em questão pertencia ao grupo F, sem mais explicações, apenas porque lhes saía do caralho, que é sempre um argumento com muito peso; mas o pior é que depois vieram uns simpáticos políticos que apoiaram a teoria dos fregueses da taverna e assinaram uma lei onde os falares tomaram carta de natureza e foram convertidos numa língua de raízes célticas.

Apesar da decepção, foi falar com os “colegas filólogos” do outro lado da galáxia, isto é, do país vizinho. Mas ali encontrou que o seu cartão de filólogo não era reconhecido, o qual queria dizer que ele não era um experto lambedor de cús e, portanto, não foi admitido nas máfias filolocais.

O Micael começou a pensar que estudara algo inútil. Qualquer cretino podia, sem estudos nenhuns, opinar sobre filiações, afiliações, refiliações e até enfilações linguísticas e ser tomado a sério. Cinco anos de licenciatura e cinco de doutoramento não serviam para nada. O nosso filólogo compreendeu que a única saída que lhe ficava era pedir justiça divina e dedicar-se a plantar abóboras ou cabaças para o halouím.

E o Ceu (de Bruxelas) ouviu a voz do homem justo, do Micael, e fulminou a pecaminosa filologia através do Acordo de Bolonha, localidade também conhecida por ser o berce do molho bolonhês, muito celebrado com os esparguetes. E desde então, a filologia morreu e reencarnou nos estudos de língua e literatura. Amém.

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