A primeira década do século XXI já trouxe muitas novidades na vida quotidiana. É inútil citar todas, mas vou-me centrar numa delas que me interessa particularmente: o desenvolvimento da literatura virtual.

Chamo literatura virtual (LV) a que tem como plataforma e médio de difusão basicamente a net. Não é, portanto, o mesmo que a literatura digital, ainda que em muitos casos podem coincidir. A literatura virtual está a crescer nestes últimos anos e o resultado duma primeira fase do seu desenvolvimento é ainda uma incógnita.

Como cultivador da literatura virtual, interessa-me também observar como está a se desenvolver pola rede. Como tudo nesta vida, a literatura virtual tem claros e obscuros e, como acabo de dizer, está em fase de formação, portanto não se pode ainda dar uma definição fechada do género (de facto, em literatura as definições são virtualmente impossíveis em muitos casos).

O veículo mais comum que se está a dar na LV é o blogue. É uma plataforma polifuncional que serve para tudo, mas que está a dar grandes resultados na publicação de textos literários. Junto com ele, é preciso citar o desenvolvimento da microstória (permita-se-me chamar assim ao microconto). A microstória não é un género recém inventado, mas a microstória atual, a que se desenvolve na internet, sim é algo novidoso. Eu não me sinto capaz de dar os seus traços fundamentais num espaço tão reduzido como este, mas sim direi que é uma reação a certas tendências atuais na literatura, como o romance.

Porém, a microficcção virtual não está contra nada. É um erro pensar que quem cultivar géneros breves na internet está contra outros géneros longos na edição em papel. Precisamente surpreende ver como algum canonizador literário deita porcaria contra a literatura virtual, como se fosse impossível fazer literatura de qualidade na internet. Acho que ambas as literaturas podem coabitar perfeitamente. Não se pode negar que a literatura virtual precisará desenvolver filtros de qualidade se quiser ter futuro, mas rejeitá-la de início é um grande erro. O futuro já indica que a literatura virtual e particularmente a microficção estão já a ter un espaço próprio, tanto com autores quanto com leitores.

Aliás, para as línguas ameçadas, a literatura virtual pode ser uma tábua de salvação. Não tenho dúvida disso. A combinação do valor literário junto com a universalidade e a gratuidade da internet podem dar como resultado um produto novo, diferente, não por isso melhor ou pior do que já existe na literatura convencional. Eu só pediria tempo para ver como se desenvolve, porque, se calhar, cumprirá mudar os critérios de canonização literários nalgum momento. E esta pergunta aqui e agora lembra-me aquela do conto infantil que dizia: «Quen teme o lobo feroz?». Talvez a literatura virtual é un lobo feroz que vai devorar a literatura fora da internet? Sinceramente, acho que não.