Hoje mesmo, no aeroporto de Praga, caminhava diante de mim uma rapariga de vinte e tal anos. Comentava com a sua amiga como foi atendida em inglês no aeroporto de Praga. Ela dizia:

— Pos imagínate, va la tía y me pregunta: ¿«duyuspitinglis» (sic)? Y yo le digo. Pos no. Y va la tía y me sigue hablando en inglés.

A rapariga em questão estava muito ofendida. Porém, ela representa esse estereótipo de espanhol monolingue e monóglota que chega até o 80% da população espanhola, cousa que é muito triste. Eu imagino que a rapariga esperava que em Praga lhe falassem espanhol como fazem em Madrid. Ela, como esse 80% de espanhois monolingues e monóglotas leu muitas vezes que o espanhol é a terceira língua materna mais falada no mundo, o qual é verdade, mas o 90% dos seus falantes estão na América Latina. Na Europa, não. Aliás, a quantidade e a qualidade são conceitos diferentes, basta dar uma vista de olhos à internet e ver que o alemão está mais presente na rede do que o espanhol. Há uma subtil diferença entre o número de falantes e a qualidade da cultura que se produz com uma língua. Os checos, por norma, são mais cultos do que os espanhois.

E digo isto sem rancor e sem ódios. Não sou nacionalista de nenhum signo e portanto não estou a atacar o infamante Estado espanhol que oprime o meu país sem Estado, digo isto porque gostaria de fazer um contrapeso a tanta informação falsa que gera atitudes cretinas e que faz que me avergonhe imensamente de ser reconhecido como espanhol quando viajo pela Europa com pessoas que estão orgulhosas da sua mediocridade. Como cidadão espanhol que sou, não quero ser identificado com esses meus concidadãos que estão orgulhosos da sua incultura.

Alguma vez pensei que a incapacidade de muitos espanhois para falarem outra língua além da própria era devido a uma questão genética. Tentava dar-lhe uma justificação ao injustificável, mas hoje já nem tento enganar-me. Há uma questão que já tenho citado mais vezes: os espanhois bilingues são uma espécie em extinção porque uma grande parte dos espanhois monolingues querem acabar com eles. Para os movimentos pela defesa do espanhol, a liberdade linguística está por cima de tudo. Mas é a sua liberdade linguística. Em casos como o galego chega à paranoia, porque não se pode compreender que se faça tal revolução de caráter fascista contra a língua galega. Mas, o que é que se esconde realmente sob essa hipótese da defesa da liberdade linguística? Só uma coisa: o medo ao fracasso.

E agora vou analisar esta situação desde outra perspectiva que não tem nada a ver com a liberdade, mas com a ignorância e o orgulho da mediocridade. Para começar, associações que promovem o falso bilinguismo (porque na realidade é entre espanhol e castelhano) opõem-se realmente à outra língua do território. Por que não querem falar galego? Porque não sabem na grande maioria dos casos. E estão prontos os membros destas associações bilingues a apreendê-lo? Não. Portanto, aqui alcançamos a primeira aberração: o monolinguismo, como o bilinguismo, dependem da adquisição primeira da língua. Os verdadeiros bilingues são os galegófonos que falam aliás espanhol; os monolingues destas associações não apreenderam galego (ou catalão) e a sua falta de aptitude é disfarçada como atentado contra as liberdades.

Mas a coisa é ainda mais grave. Ser bilingue ou monolingue não é uma eleição, portanto chamar a uma associação bilingue é ridículo, porque isso depende das línguas adquiridas em casa. Há pessoas, infelizmente ainda poucas na Espanha, que sendo monolingues chegam a ser políglotas. Porém, essa é uma opção admirável. Alguns amigos monolingues fazem esforços plausíveis por me lerem em galego. O problema são os monolingues monóglotas, como a rapariga do aeroporto em Praga, como quase todos os membros das associações de defesa do “bilinguismo” (tornemos a nascer, senhores!). Ser bilingue não é uma eleição; ser políglota sim o é. O monolingue que tem terror a ser políglota defende-se dizendo que ele promove a liberdade linguística, a qual, tal como estamos a ver, envolve que sejamos todos igual de ignorantes em Espanha (todos a falarmos só espanhol) e na Europa, também… O monóglota por decisão própria é um mediocre que quer impor a sua mediocridade ao resto. Se para uma pessoa que mora na Galiza e ouve o galego constantemente apreendê-lo é impossível, é normal que pretenda que em Oslo, Berlim e Atenas lhe falem espanhol em toda a parte.

Tenho que ser honesto e reconhecer, porém, que não todos os espanhois monolingues são assim. Porém, sim são muitos os espanhois monolingues das regiões com duas línguas que são uns intolerantes com toques fascistas. Esse ditame de «estamos na Espanha, portanto falamos em espanhol» pode ser que não funcione daqui a uns anos, quando o espanhol seja língua minorizada no seu próprio território.

Felizmente, também hoje mesmo, quando já estava no avião, passaram ao meu lado três jovens. Falavam galego. Sim, total e absolutamente galego (e tenho certeza de que também sabem falar espanhol, que são realmente bilingues e até políglotas).  Aliás, os meus melhores amigos monolingues espanhois são políglotas. Todos falam alguma outra língua, nomeadamente o inglês. Porém, os cretinos não entendem por que em Praga a gente faz cursos de galego e catalão. Mas há coisas que para pessoas por debaixo de determinados quocientes de inteligência são impossíveis de ser entendidas.