Alguém perguntou-me nalguma ocasião se a linguística é uma ciência politizada. As perguntas assim feitas, em frio, é difícil respondê-las, por isso, tive de fazer uma reflexão sobre a questão. A linguística, em si própria, é uma disciplina que abrange muitos campos, desde os sons até as estruturas, passando pelos paradigmas, as regras de uso e… a escrita.

E é justamente aqui onde o modo de escrever uma língua começa a ter uma posição política. Porém, não é só na escrita do idioma onde há um compoente político, mas também na morfologia ou na sintaxe pode havê-la. Por exemplo, a evitação do infinitivo conjugado ou do futuro de conjuntivo, assim como de terminologia concreta como computador, prédio e outras muitas é algo que as autoridades linguísticas galegas promovem com muito afã para evitar ainda mais as semelhanças entre galego e português. Mas isso é algo que para a maioria das pessoas passa inadvertido. Como dizia, as questões ortográficas têm um peso maior, porque a escrita é algo visível e, portanto, percetível pelos olhos.

As autoridades asturianas da língua galega (atenção ao paradoxo), para esgalharem a língua galega das Astúrias do resto do idioma, tiveram que introduzir o apóstrofo, elemento que, como é bem sabido, não existe em espanhol e é o signo nacional do alfabeto asturiano, o qual, por sua vez, é uma má adaptação do castelhano, como o do galego oficial. Pois bem, é precisamente aqui, neste contexto apostrofeiro, onde teve lugar a anedota que vou contar agora. Acontece que, durante dois ou três anos, fui invitado a participar no livro coletivo que o Principado publica anualmente por causa das Letras Asturianas e que edita uma conhecida editora de Oviedo. Sempre escrevi em eonaviego, mas evitando situações fonossintáticas em que houvesse de utilizar o apóstrofo. O resultado disso foi que os meus textos eram inequivocamente galegos, não “galego-asturianos”, como deviam ser.

Vou ilustrar o anterior com um exemplo:

  • Porque sabe que a nena cantará

Assim escrito, isto é galego, mas não “galego-asturiano”. Por que? Porque segundo as brilhantes normas vigentes, falta o apóstrofo de rigor, que daria:

  • Porque sabe qu’a nena cantará

Agora sim, agora é “galego-asturiano” corretíssimo. Porém, para evitar este contexto fonossintático, basta introduzir uma palavra curinga:

  • Porque sabe que, daquela, a nena cantará

É cansativo, mas fazendo assim, evita-se o uso do apóstrofo de maneira que é um exercício inteletual interessante de escrever um texto que se mantenha dentro da norma ILG mas sem por isso ir contra a subnorma asturiana do galego. Porém, ao corretor da editora deveu cansar tanto jogo onde não era possível introduzir apóstrofos. E é que o apóstrofo marca a diferença, como se vê, o apóstrofo cria pátria! Dada a minha suspeitosa trajetoria de infiltrado do Lado Escuro de Lorde Vaider, mas em matéria linguística; visto que mesmo sem apóstrofos os meus textos se adatavam à «norma galega das autoridades asturianas» (saliento novamente o paradoxo); e como é impossível obrigar-me a pôr um apóstrofo, porque me parece uma aberração, já não fui convidado neste ano a participar no devandito livro. Bastava terem-me pedido que escrevesse o texto em asturiano, o qual teria feito sem problemas; mas não, eu tinha que pôr apóstrofos ao galego, porque alguns saem da caverna graças aos apóstrofos (mas outros saem graças aos eñes). Bom, cadaquém tem as suas preferências, as minhas são as guluseimas com sabor a banana, não os apóstrofos.

Pois é. A linguística choca com a política, particularmente com a má política. Quando os cretinos querem criar um idioma, basta-lhes ganharem filólogos mediocres. É assim. Mussolini tentou impor as formas de cortesia no italiano sem muito sucesso, mas o cheiro disto e daquilo… é parecido.