Em 1999 escrevi este breve artigo que foi publicado nalgures, já nem lembro onde, no qual falava sobre o futuro que nos espera aos filólogos (hoje vemos que é ainda mais cinzento, visto que Bolonha até eliminou a palavra filologia dos seus planos de estudo e substituiu-a por estudos de língua e literatura). Acho interessante recuperar aquele velho escrito doze anos depois.

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Há um poema de Fonso Velázquez que começa dizendo: Fueron tiempos bien guapos… Acho que o poeta de Tineu refere-se aos tempos passados em que a sua vida se desenvolvia por outros terras, pois já se sabe que ao final temos saudades de quaisquer circunstâncias passadas, embora estejamos convencidos, no fundo, de que hoje vivemos muito melhor.

Porém, os versos de Fonso têm razão, ao menos parcialmente. Eram tempos melhores os de antes. Não sei se quando a filologia se escrevia philologia, tão latinizante, tão quase impronunciável para os profanos, era algo melhor, mas sim pelo menos quem estudar tal disciplina era ciente de que aquela era uma cadeira séria, reservada a pessoas que passavam boa parte das suas vidas centradas no estudo das línguas, das suas derivações, das suas origens, da sua diversidade, da sua história, da sua sorte e da sua estrutura.

A dias de hoje, o aprendiz de filólogo passa uma carrada de anos a trabalhar com conceitos estranhos, a mergulhar em velhos tetos que cumpre ler com a ajuda de edições especializadas, a comparar aqui e ali dialetos de que ninguém nunca ouviu falar, destripando textos da Idade de Pedra (bom, estou a exagerar um bocadinho, reconheço-o) até que, depois de deixar os melhores anos da sua vida entre os muros duma faculdade, sai para a rua com um diplominha que diz que é filólogo.

Mas é precisamente então que começa o verdadeiro pesadelo. O neófito gosta de pôr em prática os seus conhecimentos e dedica-se a intervir em debates, lançar ideias e propostas, sempre com a sua melhor intenção, a de fornecer novos conhecimentos ao mundo das línguas. Mas, o que é que encontra realmente? Algo muito pior do que encontrou Frei Luis de Leão quando abandonava o seu parnasso à beira do Tormes e voltava para o mundanal barulho. Descobrirá, com toda a dor do seu coração, que a filologia não serve para nada, porque um biólogo (por exemplo), que geralmente opina de células e de processos de clonação falará ex-cathedra de filiações linguísticas; ou descobrirá que acontece algo semelhante com um advogado que por norma retorce as leis, o qual proporá a criação de novas línguas por decreto, como se for um novo código penal; ou, se calhar, encontrará médicos que igual que curam pacientes podem curar línguas, com pílulas, ainda que sejam de tinta.

O nosso jovem filólogo não estará contente, não. Provavelmente dirá que perdeu miseravelmente o seu tempo e por quê diabos decidiria ter começado aqueles estudos de filologia. Mas ainda não terá visto o melhor: um camponês a lhe dar lições de parentesco lingüístico da sua fala e das dos vizinhos a partir da comparação com os berros que larga a sua vaca quando está em cio.

Coitado, até dá pena. Mas na altura só terá duas opções: ou esquecer que é um parasito social (o seu trabalho já o cumprem outros perfeitamente e não precisamente grátis) ou inventa uma outra ciência, quiçá a glossoficção, onde o apreendido sobre as línguas tem sempre rendimento político graças à invenção.

Contudo, de vez em quando alçará a vista para o alto e pensará como eram lindos aqueles tempos da philologia. Que lástima…