Desde o primeiro momento em que tive contato com a língua checa, notei que o seu sistema ortográfico, para além de muito coerente, era uma parte da sua roupagem linguística. Mas nem só acaba lá a coisa, aconteceu que, segundo fui conhecendo o resto de idiomas eslavos da região, apercebei-me que a maioria dos idiomas eslavos ocidentais mantêm uma grande parte da unidade ortográfica (refiro-me aos que se escrevem em latino, obviamente). Vou tratar sobre esta questão que me é muito interessante.

O checo pertence ao grupo de línguas eslavas ocidentais. Tal situação faz com que seja relativamente assequível para polacos, sórbios, eslovacos (para estes muito mais do que para o resto), mas também tem certa assequibilidade para servo-croatas e eslovenos. Há nisto uma razão meramente linguística: a menor distância que existe entre o checo e as línguas eslavas mencionadas do que pode existir entre, ponhamos, o português e o romeno e, logicamente, o francês, referindo-nos às línguas românicas. Quanto às línguas eslavas, a compreensão das línguas da Península Escandinava entre elas é altíssima, mas já não acontece assim com as do sul, o alemão e o holandês.

Mas tornando para as línguas eslavas, para além das semelhanças entre elas (sintaxe, morfologia, léxico), uma parte destas línguas têm uma certa unidade ortográfica. Portanto, nem só a estrutura, mas também a vestimenta das línguas eslavas permite que a sua intercompreensão seja ainda maior. Vou explicar-me.

Checo, eslovaco, sórbio (ou sorábio), esloveno, e servo-croata compartem um sistema ortográfico em que coincidem em grande medida. Todas estas línguas possuem grafemas como <š>, <č>, <ž>, <c>. Este último grafema apresenta a peculiaridade que se pronuncia sempre /ts/, mesmo com <a>, <o>, <u>. Existem diferenças entre os diferentes sistemas, evidentemente, mas no essencial concordam. O checo possui grafemas próprios como <ř>, <ů>, <ě>, <ň> (este també existe em eslovaco e é quase igual em espanhol!), o eslovaco possui <ä>, <ô>, <l’>. As vogais longas, que existem apenas em checo e eslovaco marcam-se com um acento.

Bom, e o polaco? O polaco possui um sistema próprio, que recolhe alguns elementos dos anteriores, como <c> sempre com valor /ts/, mas depois usa dígrafos em toda a parte: <sz>, <cz>, <rz>, ou signos especiais como <ź>, <ś>, <l>, <ń> (este em vez do checo-eslovaco <ň>), etc. Além disso, emprega <w> e não <v>. Mas se fizermos um pequeno experimento, consistente em escrever uma frase polaca com o alfabeto checo (lá onde for possivel, porque há sons para os quais o checo não tem grafemas), as semelhanças são incríveis. Eis a prova:

  • PL (padrão):  Brat jest jesczce mal
  • PL (checo): Brat jest ještě maly
  • CZ: Brat je ještě  malý
  • Trad.: O irmão é ainda pequeno.

Nota: A grafia <l> que representa uma vocalização do /l/ é perfeitamente conhecida pelos checos, dado que dialetalmente existe este fenómeno, nomeadamente na zona da Silésia.

Precisamente, o afastamento do polaco do resto de línguas eslavas ocidentais e meridionais provoca que “pareça” mais distante do resto de idiomas irmãos do que realmente está.

Portanto, uma relativa unidade ortográfica entre línguas permite uma compreensão mútua imensa, nem só no oral, mas também no escrito. E isso tem mesmo uma vantagem económica: os livros escritos numa determinada língua podem ser lidos, com uma mínima preparação polos falantes da língua vizinha.

Todavia, é muito interessante comprovar que as línguas românicas tiveram esta mesma unidade nos seus primeiros tempos. Lá onde o português, o catalão e o francês ainda conservam grafias como <ss>, <ç>, <v>, o espanhol, a partir do século XVIII mudou-as, simplificando o sistema medieval segundo a sua realidade fonética. Mas como seria se o espanhol ainda grafasse: cavallo, avesse, vezino, poço, passar, caça, etc? Aconteceria uma cousa muito engraçada: aconteceria que o galego padrão, para tentar ser língua independente não poderia ajustar-se à ortografia castelhana, porque então seria impossível distingui-lo do português.

Sei que é uma utopia, mas gostaria imenso que houvesse uma certa unidade ortográfica românica. Imaginem o italiano a escrever focacça em vez focaccia, squena em vez de schena… Seria espetacular!