Lembro-me daqueles versos de Gustavo Adolfo Bécquer que na adolescência gostava de ler por causa da sua magia:

 ¿Qué Es Poesía?

¿Qué es poesía?, dices mientras clavas
En mi pupila tu pupila azul.

¡Qué es poesía! ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía eres tú.

Se tiver que responder o que é a poesia, nem sei, francamente. É muito complicado. Pessoalmente encontro que a poesia é um meio de expressão literária fascinante. Se calhar, podo responder a que significa a poesia para mim. Precisamente é esta uma questão sobre a que venho fazendo uma reflexão nas últimas semanas e não sei muito bem por quê. Se calhar uma razão jaz na situação política que existe no meu âmbito diário, onde a política está a controlar negativamente ainda mais a vida das pessoas, onde o rumo que tomam os acontecimentos não tem cor de rosa, e é mesmo nesta situação onde percebo que a poesia é um grito de liberdade. Mas o ser um grito de liberdade não significa que se deva forçosamente escrever poesia social, o grito de liberdade pode ser um grito de impotência e um grito em que o que houver dentro, qualquer sentimento que for, sai para o exterior, flutua, fica colorido, cai no papel e toma a forma do poema.

Mas tudo o anterior ainda não explica a minha curiosidade pela poesia, ou mais bem o meu interesse. A poesia permite transmitir uma mensagem um tanto críptica; portanto, a poesia também conta. Porém, a poesia não é principalmente narrativa, não pode sê-lo. Tem uma parte narrativa, mas não conduz o leitor por uma história, no entanto, põe a sua mente em situação para passar a outra dimensão que, se calhar, lhe permitirá viajar por esta. E mesmo assim, o objetivo não será a viagem, mas a percepção. A poesia é nomeadamente percepção.

Nalguma ocasião disse que a poesia para mim era uma medida terapêutica pela qual eu tentava transformar a dor em beleza. Sigo a pensar a mesma coisa. Acho que sou capaz de dizer muitas coisas nos versos que, doutra forma, não diria. Mas o que eu digo, o leitor pode perceber dum modo diferente, mas é por causa da percepção, como dizia antes.

E no meio de todo este mundo, a minha poesia encontrou o seu lugar natural nos blogues. Foi a grande descoberta. Tenho sido muito desafortunado com a edição de poemários em livro. Apenas dous livros publicados por edições alheias e vários nas coleções próprias. Precisamente por isso é que cheguei à net. Aqui topo que a literatura não tem barreiras, não tem amos. A rede é um espaço amigável para a poesia.

Portanto, gostaria de reclamar o blogue como espaço universal para a poesia. Mas atenção, a edição virtual não é um obstáculo para a edição tradicional em papel. Nunca renunciei a ela. Sempre sostive que o que se escreve na rede pode ir para o papel, não se importa o género que for. Contudo, estou a descobrir -sem dados estatísticos que o avalem, mas é uma sensação muito forte-, que a poesia, um género sempre minoritário, está a sê-lo um bocadinho menos desde que se espalha pela rede. Conheço pessoas que nunca quereriam publicar um livro de poemas, mas sim concordam com terem um blogue de poesia. Isso é bom. Além disso, uma edição em papel tem limitações de difusão; uma edição digital, não. Um bom blogue pode ter leitores de todo o mundo.

E se o blogue for ruim? Se o blogue for ruim, morrerá. A qualidade, ao final, prevalece também. Precisamente é interessante encontrar blogues de poesia que já têm mais de cinco anos. O meu de Alcálima foi iniciado em 2005, há já seis anos. Há um ano em que mal há dois poemas, mas ultimamente estou a revitalizá-lo. Antes incluía poemas alheios, agora só os meus. Não é por egocentrismo, é por questões tácticas. E percebo que um blogue sem visitas é um blogue fracassado. Precisamente o sucesso está no equilíbrio entre poder publicar o que se quiser e oferecer aos leitores aquilo de que gostam. Isso é muito complicado. O blogue tem que se reinventar constantemente, tem que mudar mesmo a aparência. O meu blogue poético procura acompanhar o texto duma imagem. Além disso, o texto tem que ser breve. Um poema longuíssimo cansa. Para cada entrada convém incluir um só texto e, se for, possível, que não ultrapasse o tamanho do ecrã.

A partir daí, Alcálima é um torrente de poesia. Quando tenho algo que dizer, digo-o. Quando não tenho nada que dizer, fico calado. É melhor assim. Não se pode forçar a poesia, porque sairia um aborto literário. Ultimamente optei por incluir uma versão em espanhol dos meus textos escritos noutras línguas. Quando os poemas são breves, isso é possível, se fossem textos longos, seria cansativo; permite-me aumentar o meu número de leitores (e francamente, quero que a minha poesia se expanda). Por outra banda, em Alcálima ninguém impõe o modelo de língua, penso que os meus visitantes leitores procuram literatura, não modelos linguísticos dentro da norma.

Quero concluír dizendo que o meu blogue poético é um espaço de liberdade, o meu espaço de liberdade compartilhado com aqueles que me visitam, sejam pessoas conhecidas ou não, onde aqueles que se creem donos da poesia não alcançam a silenciar nada. Acredito num mundo mais justo onde a poesia pode mover corações e mentes. Acredito no poder silencioso da internet através dos blogues e desejo que o futuro seja um bocadinho melhor graças à poesia, a dias de hoje, e também ligeiramente menos minoritária.