Uma dessas palavras que o árabe deixou em quase todas as línguas europeias é armazém, com variações segundo as zonas. Entrou através da Península Ibérica, onde a forma مخازن  <maxázin> passou a ser pronunciada /maxazén/. Como é frequente na Península, tomou o artigo e assim temos o espanhol almacén e o português armazém. O catalão, pola sua banda, oferece magatzem. É preciso dizer que o significado original do árabe é aquele que se mantém nas línguas europeias.

Até aqui tudo correto. Mas outras línguas do âmbito românico tomam também este arabismo. Assim, temos o italiano magazzino, o sardo magasinu e mesmo originariamente também o francês magasin. A forma francesa vai passar para o inglês e a italiana para o alemão (mas aqui com pouco sucesso, onde é mais frequente Lager do que Magazin). As línguas eslavas ficaram, porém, fora do alcance do arabismo.

Porém, até aqui o significado primário. Mas tanto em francês quanto em inglês, esse significado de “depósito” vai mudar. Em francês atual, um magasin é uma loja e esse significado encontra-se em romeno, que o tomou como préstimo: magazin. Em troques, em inglês vai ter um significado completamente novo (a mudança do francês é mesmo lógica), mas a do inglês é radical, visto que magazine passa a significar revista. Quando se consulta a etimologia desta voz, encontra-se que a mudança tevo lugar por volta do século XVIII:

magazine Look up magazine at Dictionary.com1580s, “place for storing goods, especially military ammunition,” from M.Fr. magasin “warehouse, depot, store,” from It. magazzino, from Arabic makhazin, pl. ofmakhzan “storehouse” (cf. Sp. almacén “warehouse, magazine”), from khazana “to store up.” The original sense is almost obsolete; meaning “periodical journal” dates from the publication of the first one, “Gentleman’s Magazine,” in 1731, from earlier use of the word for a printed list of military stores and information, or in a figurative sense, from the publication being a “storehouse” of information.

E é no século XX que se generaliza este significado no resto de línguas europeias que tomam o anglicismo em muitos casos. Nalguns deles, como o alemão com das Magazin que já existia na língua ainda que com o significado primário, ou o francês onde magazine alterna com revue. Mesmo em espanhol, ainda que com um valor dedelimitação lexical para determinado formato da televisão, com formas que vão desde magazine até magacín, forma já adatada.

Mas as línguas eslavas, que ficaram salvas da primeira ondada de armazens, não o conseguiram desta, porque o inglês magazine entrou em todas elas com maior ou menor fortuna, como o checo magazín, o eslovaco magazin, o polaco magazyn, etc.

Mas o mais engraçado é ver que a acepção inglesa chegou até o mesmo árabe. A palavra que pariu a ideia do depósito, recebe agora um novo termo: ماغازين mágázín que faz a concorrência ao clássico مجلة majalla. Com certeza são duas formas diferentes o مخازن  e o ماغازين , mas percebe-se toda uma viagem de ida e vota durante vários séculos. Há mais casos destes, mas serve para refletir claramente que as palavras vão e vêm para além do nosso controlo.

Porém fica-me a dúvida se, em muitos destes casos e nomeadamente nos tempos que correm, até a língua não se muda ou se transforma segundo padrões imensamente capitalistas. Esta é uma questão que algum dia gostaria de verificar.