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Qualquer biografia sobre o autor diz que nasceu em Praga em 1883 e que morreu em Kierling, Áustria, em 1924. É um autor aplaudido e rejeitado por igual, cuja identidade está sempre sob discussão, pois não se sabe exatamente o que é que ele era, visto que não escreveu em checo, ainda que sim falava este idioma, tinha amigos checos, mas o alemão, para além da sua língua materna, era a sua língua de criação literária. Também é algo perfeitamente conhecido que Franz Kafka nasceu no seio duma família judia, filho de Hermann Kafka e Julie Löwy; ambos sobreviveram o seu filho.

Um dos estereótipos que se pode ler na maioria dos manuais é que Kafka foi escritor exclusivamente em alemão. Kafka falava checo e mesmo começou a escrever em checo. É preciso atender para o facto de o seu pai ser checo-falante, procedente duma família checa do sul da Boémia. O apelido Kafka não é mais do que a germanização ortográfica do checo Kavka, pronunciado igual e que faz referência ao nome da gralha (o pássaro da família dos córvidos).

Quanto ao emprego que Kafka fazia do checo, afirma Josef Čermak (K. Borberg & S. Houtermans, 2007), tradutor dalgumas das suas obras.

“Kafka lebte unter Tschechen. Die Sprache war für ihn sehr angenehm. Er mochte sie. Auf der anderen Seite war er auch aktiv – nicht perfekt, aber sehr gut – der Sprache mächtig. Und seine passiven Sprachkenntnisse waren fantastisch”

Há múltiplas testemunhas do seu conhecimento do checo (M. Nekula, 2007):

In Kafkas Elternhaus wurde überwiegend Deutsch gesprochen, mit dem Dienstpersonal sowie mit den Angestellten und Kunden im familieneigenen Geschäft jedoch häufig auch Tschechisch (bzw. ›Böhmisch‹, wie man damals noch sagte). Kafka wuchs also im Grunde zweisprachig auf, konnte sich allerdings – wie schon seine Eltern – im Deutschen flüssiger und differenzierter ausdrücken. Da es im Prager Geschäftsleben von großem Vorteil war, sich in beiden Sprachen bewegen zu können, legte die Familie Wert darauf, dass Franz während der Schulzeit seine Tschechischkenntnisse noch verbesserte. Ohrenzeugen zufolge soll Kafka Tschechisch mit leicht deutschem Akzent gesprochen haben.

Reconhece-se, portanto, que não era perfeitamente bilingue, mas sim manejava perfeitamente o idioma checo. Assim, quem afirmar que Kafka não teve relação nenhuma com a cultura e a língua checas, simplesmente ignora a realidade da vida deste autor.

No entanto, não se trata simplesmente de aceitar que Kafka for praguense -e portanto também checo-, mas também é preciso aceitar que é impossível entender a obra de Kafka sem Praga. O imaginário kafkiano é Praga, não essa Praga que surge perante os olhos do turista, mas outra Praga mágica que se nota desde umas condições de conhecimento e de estado de ânimo completamente diferentes.

Mas, como é percebido na Praga das primeiras décadas do século XXI? Infelizmente, em Praga é basicamente um bom reclamo turístico. Precisa-se saber que Kafka nasceu cidadão do Império Austro-Húngaro, como súbdito boémio da minoria alemão-falante, mas morreu como cidadão checoslovaco, visto que a Checoslováquia tinha nascido como Estado nos territórios da Boémia, Morávia, Eslováquia e uma parte da Silésia após a desmembração do Império Austro-Húngaro depois da Primeira Guerra Mundial. Portanto, o Kafka nunca foi cidadão alemão, mas sim checoslovaco, ainda que hoje seria apenas checo.

Portanto, o problema da identidade literária do Kafka radica precisamente no conceito ainda sem resolver dos apelidos que se acostuma pôr a todas as literaturas. Estou a me referir à concepção da identidade da literatura.

Quando se fala em literatura espanhola, a que estamos a nos referir exatamente? À literatura feita por cidadãos espanhois? Isso incluiria, na teoria, aqueles escritores espanhois que escrevem em línguas diferentes do espanhol. Mas, se entendermos por literatura espanhola a escrita em língua espanhola, o que nos impede incluir nela autores argentinos, uruguaios, colombianos ou mexicanos sob essa etiqueta? Mesmo poder-se-ia falar em algo muito mais confuso, referindo-se a autores espanhois que só escrevem em espanhol, o qual é a ideia mais difundida e que predomina nos manuais de todo género. Isto explicaria por quê o Kafka é vítima desta última concepção, a meu ver muito discutível, porque a literatura checa seria a escrita em língua checa por cidadãos checos. Assim, o Kafka não pode ser escritor checo, mas também não austríaco e menos ainda alemão.

Portanto, é preciso abordar esta questão desde uma ótica exclusivamente linguística, embora seja esta uma opção de que não gostarão muitas pessoas, particularmente no campo daa línguas não-estatais, onde a língua e a sua literatura são um tandem identitário inquestionável.

Se por literatura espanhola entendermos a literatura feita em língua espanhola, por literatura checa a feita em língua checa e por literatura alemã a feita em língua alemã, as coisas serão muito mais simples, embora as consequências possam ser inesperadas. Analisemos alguns aspetos desta hipótese que acabo de formular: a literatura espanhola é a feita por autores que empregam este idioma com independência da sua nacionalidade (espanhola, argentina, cubana, venezuelana ou costa-ricense) e, em tal caso, não existe a literatura argentina (por exemplo), porque Borges e outros grandes vultos (Vargas Llosa, García Márquez, Benedetti, Neruda) são escritores que fazem parte da literatura espanhola, embora não fossem espanhois. Mas aqui encontramos um problema, porque, quem duvida da existência duma literatura argentina? De facto pode-se duvidar dela, mas o mais exato, a meu ver, seria falar duma literatura espanhola da Argentina. Desta forma, quando falarmos em literatura espanhola estaríamos a dizer realmente literatura em língua espanhola.

Desde esse ponto de vista, Kafka sim é um escritor que faz parte da literatura alemã, ou mais exatamente da literatura em lingua alemã, mas não é um escritor alemão, porque nunca teve essa nacionalidade. E também desde esse ponto de vista Kafka é um escritor checo, porque checa era a sua nacionalidade (na altura checoslovaca), embora fosse um escritor em língua alemã. Assim sim é possível explicar que o Kafka seja um autor de leitura obrigatória nos liceus alemães.

Porém, o caso do Kafka de ser um escritor checo em língua alemã não é um caso ilhado. Vou referir-me a esta questão a seguir.

Com efeito, Kafka fica longe de ser o único escritor checo do século XX que escreveu em alemão. É preciso salientar a figura de Lenka Reinerová (1916-2008), que viveu grande parte da sua vida num dos bairros mais castiços de Praga: Dejvice e cuja obra principal são as suas memórias acerca do estalinismo em Praga, do que foi vítima: Alle Farben der Sonne und der Nacht. Lenka Reinerová esta ligada a Praga tanto como Kafka e o facto de ter escrito em alemão não lhe tira um bocado de “chequismo” à sua obra obra. Mas, à diferença de Kafka, Lenka Reinerová era perfeitamente bilingue, dominava o checo e o alemão ao mesmo nível.

Ela tem a triste honra de ser a última escritora checa em língua alemã; de facto, com ela acabou a Escola de Escritores Alemães de Praga, em que também se inclui Kafka, dando-se, aliás, a circunstância de que ambos eram de origem judia.

E também não convém esquecer que os escritores em língua alemã não alemães encontram-se mesmo em países onde as minorias linguísticas alemãs já desapareceram ou estão prestes a desaparecer, como é o caso de Herta Müller (1953), prémio Nobel de literatura em 2009, mas romena. Contudo, à diferença de Kafka, Herta Müller sim publicou alguma obra relevante em romeno, como o poemário Este sau nu este Ion (2005).

Porém, para muitas pessoas a nação e a literatura são dois conceitos que têm que ir forçosamente juntos. Será por essa razão que o Kafka nunca será um verdadeiro checo, porque não escreveu em checo. Para cúmulo das situações aberrantes, cabe citar a polémica surgida há poucos anos sobre quem deve custodiar os manuscritos do escritor praguense. Como é sabido, Max Brod, amigo íntimo de Kafka, era o responsável por cumprir a sua última vontade de os seus manuscritos serem queimados, mas em vez de o fazer, Brod foi publicando toda a sua obra.

Tais manuscritos passaram depois à sua secretaria após a sua morte (1968) e a seguir às filhas desta. Recentemente o Estado de Israel reclamou a sua custódia por ter sido Kafka judeu, mas as autoridades alemãs também os reclamam por ser o Kafka um dos escritores mais importantes em língua alemã. Paradoxalmente, as autoridades checas, que a meu ver deveriam ter algo a dizer sobre a questão, não se pronunciaram sobre isso e não parece que tenham nada a reclamar.