Tem-se escrito muito do Kafka como um dos renovadores da narrativa do século XX, tanto que até foi acunhado o adjetivo kafkiano para fazer referência ao que é absurdo e não tem explicação. Isso é devido em grande parte ao impato da sua obra A Metamorfose (=Die Verwandulung), obra fundamental do século XX.

Porém, há outro aspeto do Kafka menos estudado e que aqui me interessa particularmente analisar: trata-se do Kafka autor duma obra densa de narrativa breve, algo não tão frequente na súa época, mas que o autor de Praga soube dominar perfeitamente.

A obra breve de Kafka é um modelo que ainda hoje tem uma legião de seguidores entre os escritores do século XXI e embora ele não conhecesse a literatura virtual , é evidente que se Kafka tivesse vivido nos dias de hoje seria um entusiasta da internet, tenho certeza disso, por causas das possibililidades que oferece a net e, ao mesmo tempo, pela presença cada vez maior dos géneros hiperbreves na net, uma questão de que me vou ocupar a seguir.

Porém, antes de continuar a fazer valorações acerca dos méritos do Kafka, é preciso esclarecer certos conceitos terminológicos respeito de determinadas formas literárias modernas, onde a influência do Kafka é, precisamente, mais salientável.

Os géneros breves, como já indica o seu nome, referem-se a formas literárias duma extensão reduzida, nomeadamente na narrativa e na poesia, embora seja também possível encontrá-los também no teatro. Neste caso, interessa-nos centrar-nos na narrativa, por ser Kafka principalmente um narrador (contudo, também escreveu algo de poesia).

Historicamente os géneros narrativos breves existem já desde os tempos clássicos, sendo o mais conhecido Esopo com as suas célebres fábulas. Na Idade Média continua este tipo de narrativa breve nos Bestiários, mas não cesará de ser cultivada ao longo dos séculos.

Devemos esperar até o século XX para os géneros breves tomarem consciência de si próprios. E é precisamente Kafka um dos seus cultivadores principais, embora os estudos literários se tenham ocupado muito pouco desta faceta sua, prestando muita mais atenção para o que deriva doutros elementos da sua escrita e, nomeadamente, do regueiro deixado pela sua Metamorfose.

Kafka é, portanto, pioneiro destes géneros na sua versão moderna junto com outros autores como Ernest Hemingway, autor do célebre nanoconto:

For Sale: Baby Shoes, Never Worn.

ou bem Adolfo Bioy Casares, com:

Tigres

El tigre cebado se lamenta de no encontrar barbero que le atuse los bigotes.

Mesmo assim, os dois autores que acabo de citar escreveram nanocontos, mas Kafka não, ele escreveu minicontos. Embora sejam todos eles géneros breves, são diferentes e acho que, chegados a este ponto, é preciso esclarecer quais as diferenças entre tais formas literárias, entre as que incluo o nanoconto, o microconto e o miniconto.

Não é preciso definir aquí é o que é um romance, uma novela o um conto por serem conceitos amplamente definidos Neste estudo vou tratar apenas daqueles géneros e subgéneros que se encontram por baixo do conto. Num artigo meu recente , formulei que os géneros narrativos breves são três a depender da sua extensão.

O mais curto é o nanoconto, cuja extensão máxima é 140 caracteres, fixados assim pelos parâmetros da rede dos microblogues Twitter, embora existam precedentes no mundo virtual que já os situam nos SMS.

A partir daí já se fala em microcontos, cuja extensão máxima não costuma ultrapassar 200 palavras ou 8 linhas, embora não exista um acordo global sobre esta extensão padrão.

Num degrau superior eu introduzi o termo miniconto, que seria a ampliação do microconto até alcançar uma extensão máxima de duas páginas de tamanho padrão, para, a partir daí, já ser considerado conto.

É justamente neste terceiro subgénero, o miniconto, onde o Kafka desenvolveu boa parte do seu talento literário, deixando para o futuro uma mostra de microcontos excelentes que nos chegaram em forma de coleção de histórias onde se misturam microcontos com contos e até mesmo algum microcontos, que também há algumas mostras deles.

Uma boa seleção de microcontos do Kafka em português pode ser lida no sítio E-Text e no blogue Contos do Covil.

Não deve estranhar que Kafka alterne microcontos e minicontos e também contos (tem textos que oscilam entre as 2 e as 5 páginas). Muitos dos minicontos e dos microcontos não deixam de ser pensamentos com formas literárias, o qual, porém, não é frequente na literatura virtual atual, ainda que sim o seja a ironia e os tratamentos surpreendentes, onde Kafka deixou a sua pegada.

Nesse sentido C.S. Waytt descreve a sensação que lhe produz a leitura dos textos do Kafka:

Reading a Kafka short story is like running a race. You find yourself fighting to read, like a passerby trying not to look at a crime scene or accident victim. Because we know what “Kafkaesque” means, we know what to expect from the author. Yet, we read the tales, knowing the end might be neither just nor reasonable. This absurdity separates Kafka’s tales from those of Rod Serling’s Twilight Zone – Serling tended to teach lessons and dispense justice while Kafka merely taunted his characters, then they suffered.

 Continua este mesmo autor a comentar acerca do escritor praguense que é crucial para compreender a narrativa breve contemporânea:

 Franz Kafka is best known for describing absurd situations with simple, cold words. Kafka did not attempt to shock readers with detailed descriptions of horrific scenes; instead, Kafka preferred blunt absurdity.

Kafka conhecia muito bem o valor do breve. Provavelmente as longas noites de solidão na Ruela do Ouro, ao lado do Castelo de Praga, onde tantas e tantas noites se fechou a escrever à luz dum candeeiro possibilitaram-lhe concentrar toda uma experiência vital em histórias dumas poucas linhas.

Recolheu ao certo o sentido da sua existência, angustiosa para ele, obsessionado com a morte, que tantas e tantas vezes salpicam os seus textos. Porém, ele é ciente de empregar um tipo de narrações que é muito antigo, eis por quê ele escreveu textos que imitam as fábulas do Esopo (lembre-se que o autor grego é possivelmente o mais antigo cultivador do género na Europa), como este intitulado Uma pequena fábula (= Eine kleine Fabel), um título possivelmente dado por Max Brod:

— Ai —disse o rato—, o mundo está a ser tornar mais pequeno a cada día. No início era tão grande que eu tinha mesmo medo, corria e corria, e alegrava-me quando ao final via paredes de longe à direita e à esquerda, mas estas compridas paredes minguaram tanto que já estou no último quarto e lá na esquina está a trapa em que eu devo cair.

— Apenas tens de mudar a tua direção —disse-lhe o gato e comeu-o dum bocado.

A grande mestria do Kafka explica como ele é capaz de mudar o registo com tanta facilidade, passando de escrever textos com uma complexidade incrível a expressar a sua angústia numa fábula aparentemente para crianças. Contudo, em Kafka complexidade e singeleza podem coabitar numas poucas linhas.

É precisamente nessa capacidade de explorar a brevidade que jaz um dos grandes sucessos do Kafka.

Além disso, é preciso sinalar que muitos dos textos publicados por Kafka quando ele estava ainda vivo são narrações breves, dado que a maioria da sua obra foi publicada postumamente pelo seu amigo Max Brod.

Entre os textos publicados figuram: A negativa (Die Abweisung) Hyperion 1908); As árvores (Die Bäume) Hyperion 1908; O caminho a casa (Der Nachhausweg) Hyperion 1908; etc.

Precisamente a capacidade de síntese e de surpresa que tão magistralmente utiliza o Kafka são elementos característicos da microficção atual. Outro grande génio destas formas foi o escritor argentino Jorge Luis Borges, outro autor anterior à época da internet, mas ambos deles supõem a maior herança que têm os escritores atuais de microficção.

Para concluir, vou reproduzir um último microconto com um final surpreendente, que reflete a genialidade do autor praguense que deixa o leitor com as ideias a flutuar em qualquer direção, à espera de algo mais, mas já nada vai vir:

Ordenei que trouxessem o meu cavalo ao estábulo. O servente não percebeu as minhas ordens, portanto eu próprio fui ao estábulo e pus a sela ao cavalo; depois montei nele. Na distância senti o trompete e perguntei ao servente acerca do seu significado. Ele nem sabia nada, nem ouvira nada. No portão deteve-me e perguntou-me:

— Onde é que vai o senhor?

— Não faço ideia —disse-lhe—, quero simplesmente sair daqui, fora daqui, apenas isso, porque é a única forma de alcançar a minha meta.

— Então, o senhor conhece a sua meta?

— Conheço —respondi—, acabo de to dizer: sair daqui, essa é a minha meta.