O que vou expor aqui são apenas duas ideias relativas a uma das grandes questões que apresenta a Língua Sarda Comuna (LSC) a respeito da unificação ortográfica dos falares do norte e do sul da ilha pelo tratamento de dois fenómenos que exponho a seguir:

1. Por um lado, os falares setentrionais mantêm em geral a pronúncia original latina /(s)ke-/, /(s)ki-/ em palavras como chenàbura, chentu, pische, ischire, mas em posição intervocálica cosighedda, bighinu, cughina (não tenho em conta a pronúncia nuoresa com /k/ também nestes casos).

2. Pelo outro, no sardo meridional tais pronúncias evoluíram (sem termos em conta a lenição em posição inicial) e deram: /tše/, /tši/ no primeiro caso: cenàbura, centu; /š/ no segundo: pisce, scire; e /ž/ no terceiro: cosixedda, bixinu, cuxina.

A  questão é que, à hora de decidirem, os responsáveis pela normativização da LSC escolheram as formas mais conservadoras por razões que agora não vou justificar aqui, o qual, tecnicamente, é uma opção válida. Porém, dado que a LSC é um código linguístico basicamente escrito, a diversidade de pronúncias é teoricamente possível com muita flexibilidade sob uma única forma escrita.

Portanto, como se pode resolver tais situações duplas? Ao meu ver, existem três hipóteses. A primeira, é deixar a forma escrita como está. A segunda é aceitar duplas grafias em todos estes casos, isto é, aceitar que os falantes do sul possam escrever cenàbura, centu, pisce, scire, cosixedda, bixinu e cuxina, embora as formas con /k/ e /g/ sigam a ser formas prioritárias. E a terceira opção é muito mais simples, e vou desenvolvê-la a seguir.

Tratar-se-ia de introduzir uma nova grafia em sardo, mas que existe noutras línguas românicas: <cj>. Bem sei que o primeiro comentário é que essa letra não existe em sardo moderno, o qual é certo, mas a sua introdução poderia unificar a ortografia completamente, pois não existiria qualquer diversidade de grafias, mas sim diversas pronúncias. Segundo esta proposta, quase todas as palavras anteriores teriam uma só grafia, isto é: cjenàbura, cjentu, piscje, iscjire / scjire, cosicjedda, bicjinu, cucjina. Quais as vantagens? Para além da unidade ortográfica, dá-se também uma assimilação às outras línguas românicas inclusive na escrita em muitos dos casos (não em todos, obviamente), mas nem inclusive isto é o importante, porque o fundamental é que não é preciso escolher duas grafias diferentes para dois sons diferentes numa só palavra.

Observe-se que o <ç> é sonoro ou surdo nas mesmas circunstâncias do <s>: em posição inicial absoluto ou após uma vogal é surdo, mas em posição intervocálico é sonoro

grafia_sardo01Este fenómeno é paralelo ao tratamento de <gh> e <g> noutros casos, onde existe a mesma disparidade. Poder-se-ia optar também aqui por uma dupla escrita: ghennàrgiu, ghenucru, ànghelu frente a gennàrgiu, genucru, àngelu, ou bem procurar também uma grafia comum. Neste caso, a minha proposta é uma grafia composta, um dígrafo, que se existem em línguas como o corso ou o friulano, embora aqui tenha outro valor: <gj>. Desta maneira, teríamos uma forma escrita única em casos como: gjennàrgiu, gjenugru, àngjelu, e outros como agiùngjere, pràngjere, etc.

Os seus valores ficam refletidos neste gráfico:

Insisto que são apenas propostas. O sardo precisa soluções próprias independentemente de como se escrever o italiano. Em resumo, para resolver a questão da duplicidade, existem, como já disse, duas opções. A primeira é a aceitação de duplas grafias (o qual permitiria a existência dum subpadrão), mas com as formas já existentes na LSC como formas de preferência; ou bem, procurar uma grafia que possa recolher as duas soluções fonéticas principais, que é o que acabo de oferecer nesta postagem.