Desde que comecei a conhecer a Chéquia, a minha admiração pela sua capacidade de criar materiais didáticos para a aprendizagem de línguas estrangeiras não deixou nunca de me surpreender. Visto que sempre adorei entrar nas livrarias (acho que, se o banco me desmobilasse a casa, moraria numa) e passar nelas todo o tempo possível a dar sentido à existência do meu cartão de crédito, foi numa livraria checa (que nesse língua se diz com a mágica palavra knihkupeství, o que para os alemães é Buchhandlung ou para os árabes مكتبة «máktaba») que descobri a série «100 klicových slov» (=100 palavras chave), que recolhiam, como o seu título diz, 100 palavras principais numa língua com a sua tradução para o checo e tudo acompanhado duma grande quantidade de exemplos tanto na língua objeto do estudo quanto em checo. Como é fácil de adivinhar, tenho uma série completa destes livrinhos sobre espanhol, italiano, inglês e alemão.

Numa visita a Polónia descobri que existiam os mesmos livros, mas já em polaco (a editora, porém, era a mesma checa). Mas as coisas melhoraram há por volta de dois anos, quando estes singelos livritos deram lugar a uma evolução imensamente interessante do conceito das 100 palavras chave. Trata-se de livros muito mais completos que seguem a estrutura dum dicionário, mas que de facto não são dicionários. O seu nome em checo é mluvník, um interessante neologismo que combina outras duas palavras checas: slovník e mluvníce, que significam respectivamente «dicionário» e «gramática». Portanto, trata-se duma listagem muito comprida de palavras em ordem alfabética, mas sem definição, apenas com tradução e exemplos. A ideia é que o estudante possa usar o livro em questão para estudar ou para consultar. O uso profuso de exemplos, todos eles traduzidos, permite a perfeita compreensão dos diversos significados.

Como se trata tanto de palavras de frequências máximas, quanto de palavras funcionais que têm um valor nomeadamente gramatical, o estudante tem entre mãos um livro que pode utilizar para a leitura repousada do idioma. Sinceramente, eu encontro-o genial. É preciso dizer também que na minha última visita a Polónia, em setembro de 2011, encontrei também a versão polaca destes livros, que nesse idioma são chamados rozmównik. Nessa altura foi com a combinação polaco-inglês.

Com todo o respeito pela ideia, achei que eu poderia implementá-la com as línguas que eu trabalho, nomeadamente o galego. Hoje comecei a preparar um destes manuais com a combinação galego-espanhol (estava mesmo a pensar em fazê-lo trilingue com o inglês) e acho que vou fazer outro com a combinação português-espanhol. Combinarei a lista de palavras de maior frequência (evitando as que são idênticas nas duas línguas) e as palavras funcionais mais importantes. Nos exemplos pode incluir-se outra grande quantidade de léxico que não aparece nas entradas.

Mas depois de desenvolver a ideia, veio a pergunta: como chamar a este tipo de materiais? Não são dicionários, não são manuais de gramática. Afinal cheguei à conclusão que poderiam ser chamados lexicários, porque a base é o léxico. Assim, o lexicário não se confunde com o glossário, porque é muito mais completo e até pode ter alguma explicação adicional de tipo gramatical, pragmático ou geolinguístico se for preciso.

Aí fica a palavra: lexicário. Daqui a umas semanas, espero ter pronto o primeiro. Fico grato ao talento didático dos checos, inventores, aliás, da melhor cerveja do mundo.