Algumas ideias sobre a substituição linguística, de ontem para hoje

Estados de Europa e línguas estatais

Sempre existiram línguas que ocuparam o lugar de outras até fazerem com que as segundas desaparecessem. Provavelmente o caso mais conhecido para nós dos tempos antigos é o romano, quando o Latim se impôs e fez com que se extinguissem a maioria das línguas com que coabitou durante um tempo. Há muitas razões para isso e nem sempre acontece em questão de poucos anos. Porém, o que é novo na história da humanidade é a velocidade e a quantidade de substituições linguísticas que se deram durante o século XX e que continuam a se produzir durante o século XXI.

As línguas, se não substituídas, evoluem continuamente, mas nenhuma língua é livre de se contaminar com outras línguas. Quando uma língua é substituída por outra, a substituição não é uma operação cirúrgica, é um processo que deixa traços. E precisamente disso gostaria falar nesta postagem, de casos atuais de substituição linguística na Europa, onde se dão circunstâncias muito diferentes e os resultados também são diferentes.

Na maioria dos Estados europeus ocidentais, a substituição linguística é um processo pelo qual a língua estatal, na forma do seu padrão, substitui a língua tradicional. Porém, a substituição não é uma mera mudança, pois a língua tradicional não desaparece de tudo, ao contrário, antes de desaparecer tinge a nova língua. É assim que se pode falar de espanhol, italiano, francês ou alemão regional, onde as novas gerações sim falam a língua do Estado, mas não na sua forma mais pura. O sotaque próprio costuma sobreviver, mas também podem subsistir elementos próprios regionais que passam para a língua padrão na sua adatação às regiões concretas, pode tratar-se de elementos fónicos, morfológicos ou sintáticos e, com certeza, léxicos; de facto, estes últimos são os mais abundantes.

Nalguns casos, como é a situação das Astúrias ou da Galiza na sua relação com o espanhol, a substituição é mais longa porque entre a primeira geração (ainda falante da língua tradicional) e a terceira (já falante da língua estatal na forma regional), há uma segunda que fala uma linguagem híbrida, que está destinada a desaparecer.

Um par de casos interessantes de análise: a Chéquia e a Polónia

A Baixa Silésia

A Chéquia e a Polónia têm em comum uma situação de despraçamento de povoações massivamente após a Segunda Guerra Mundial. Em ambos os casos, a expulsão da povoação alemã com ou sem mudança de fronteiras nos dois países produziu a repovoação dos novos territórios com cidadãos procedentes doutras partes dos país. Os Sudetes foram repovoados com checos de todo o país, enquanto  a Baixa Silésia e a fronteira ocidental foi repovoada com polacos procedentes na sua maioria das regiões que passaram a depender da União Soviética.

Para além da desaparição da língua alemã em territórios onde tinha existido historicamente, os novos povoadores não trouxeram os seus dialetos e os implantaram, porque na realidade a procedência dialetal era muito variada. É assim que nos dois casos a língua padrão passou a ser a língua comum no caso polaco, o qual é significativo porque noutras áreas vizinhas, onde a povoação permaneceu, sim há uma certa conservação de dialetos, como a Alta Silésia.

Os Sudetes e as áreas germanófonas antes da SGM

Mas o caso checo é diferente. A língua padrão não é falada, nem mesmo na capital (não é o mesmo caso do espanhol, alemão, francês, etc., cuja língua padrão sim é falada). A língua checa padrão é basicamente uma língua escrita. É por isso que a extinção dos dialetos não cause a implantação da língua padrão, mas o nascimento de três grandes macrovariedades dialetais: a praguense (boémia), a morava e a silésia. Os dialetos locais foram diluindo-se numa destas três grandes macrovariedades, onde a primeira é a que tem mais presitígio por se tratar do dialeto da capital.

A triste conclusão

A substituição afeta tanto a línguas regionais quanto a dialetos. No entanto, os dialetos, quando não se afastam muito da língua padrão, resistem bastante bem. Esse é o caso dos dialetos meridionais espanhois, cujas diferenças principais com a língua padrão se encontram na fonética e no léxico.

As chamadas línguas regionais ou não estatais entraram todas na categoria de línguas ameaçadas no século XX. Sempre me manifestei muito pessimista a respeito do futuro de todas ou quase todas elas. Não vou fazer referência às causas da sua desaparição, mas se aceitarmos que esta é a tendência, o que conheceremos daqui a uns anos serão línguas estatais que ocupam o espaço estatal. Se calhar, em breve, algumas dessas línguas estatais passem também a ser línguas ameaçadas, porque a diversidade neste mundo atual vai contra a tendência globalizadora, e nem só respeito às línguas, mas à flora, à fauna e à cultura em geral. Tal é o caso do gaélico irlandês, ameaçado desde há séculos, e poderia mesmo sê-lo do árabe no Líbano ou até do hebreu em Israel. Porém, outras línguas com poucos falantes no seu território, poderiam até ser absorvidas por línguas de tipo internacional, nomeadamente o inglês.

O tempo dirá se tenho ou não tenho razão.