Estes dois textos fazem parte de duas postagens que publiquei em asturiano neste blogue

Sobre a invenção do blogue

Tener un blog o no tenerlo, ESA ES LA CUESTIÓN. COXANDFORKUM.COMFalar em línguas não-estatais e novas tecnologias é falar num universo esquisito, mas apaixonante, em que podemos encontrar qualquer surpresa. É possível, em certos casos, descobrir que pode haver mais internautas do que falantes reais, que a existência das línguas ameaçadas fica no ar, em certa maneira, na net e pode sentir-se também que o convívio entre línguas é modélico. E é aí, precisamente, onde o blogue tem um papel fundamental.

Não sei quem tive a feliz ideia de inventar isso que chamam blogue. Quem a tiver, terá o meu reconhecimento e o doutras pessoas por muitos séculos. Pessoalmente tenho de reconhecer que sou um adicto ao blogue, particularmente ao blogue literário. Encontrei nele um sistema de auto-edição incomparável. Eu gosto de ter alguns blogues mistos, quero dizer, blogues onde misturo línguas, embora tenha outros que são escritos apenas numa língua, como este. Contudo, não sou o único que desfruta de encher páginas com postagens, pois é evidente que muitos criadores e ativistas das línguas não-estatais escolheram este método de acesso direto e rápido ao público.

Pode ser que o blogue se converta em algo mais do que uma plataforma e até que alcance a categoria de gênero literário, dentro do quotidiano. Estamos apenas a olhar para o que vem, não sabemos para onde é que ele vai, mas as perspectivas para as línguas ameaçadas e desprotegidas são boas. O futuro já está à mão, mas joga a se esconder entre megas e megas de cores e formas aparentemente incompreensíveis, mas só aparentemente.

Quando a língua é uma pátria

Já em jovem gostei daquela frase célebre do Fernando Pessoa que diz: «a minha pátria é a língua portuguesa». Em casos como o meu, em que a minha morada estava restringida ao centro de nenhures, a vivência das línguas fez-me sentir as línguas que amava como pátrias imateriais e, portanto, idealizadas. Aliás, dava-se a situação de que, segundo crescia, apreendia novas línguas, portanto adicionava novas pátrias à minha alma. Resultou um sistema ótimo porque não tive que viver em pátrias reais que, se calhar, me poderiam colocar em conflitos absurdos entre territórios de pó, com fronteiras igualmente absurdas.

Foi assim que comecei a ter pátrias diversas, cada uma surgida duma língua diferente. Acho que é uma das coisas mais agradáveis que me têm acontecido na minha vida. Nunca gostei de pátrias grandes o pequenas com cheiro a militar ou a armas, pelo qual também descobri na internet um meio para dar forma a essas pátrias que me povoam e com as que posso criar. Pronto, as línguas são o veículo da minha criatividade multilingue do qual gosto imenso, onde, insisto, nem há litígios fronteiriços nem os haverá nunca, porque eu não me ponho fronteiras a mim próprio.

Por essa razão, a internet é um territórios de todas as pátrias e de nenhuma ao mesmo tempo. As minhas pátrias passam pela net e definem o meu pensamento. Estou satisfeito disso, mas hei de reivindicar que, apesar de tudo, sou um apátrida, porque as línguas, essência do ser humano, fazem-me sentir que sou antes que nada pessoa.