Parece que as normas ortográficas de uma língua são tão sagradas como a Constituição, que é imutável. Para mim isso é um erro, porque as normas podem ser: cumpridas, não cumpridas ou modificadas. Sem chegarmos a radicalismos, as normas linguísticas não podem ser imutáveis porque as línguas são entes vivos em contínua evolução, portanto a normativa tem que mudar consoante às mudanças que a língua sofrer.

Se calhar o caso asturiano é um caso interessante para os estudiosos da estandardização linguística. Sempre sostive que a ortografia asturiana é demasiado caótica, portanto deveriam consertar-se muitos elementos que a tornam tão complicada. Porém, muitas dessas mudanças requerem uma reforma da normativa do asturiano, o qual é quase uma blasfémia (no sentido mais religioso do vocábulo).

Porém, determinados elementos podem ser modificados sem tocar na normativa, a lei divina emanada da Mente Suprema interpretada profeticamente pelos escolhidos. Eis algumas notas sobre como se pode melhorar a escrita do asturiano, sempre desde um ponto de vista muito pessoal e, portanto, criticável.

A vocalização dos grupos cultos

Esta é uma tendência que vem desde os primeiros tempos e que faz com que a escrita da língua resulte ridícula (não vou empregar outro termo mais forte aqui). Qualquer justificação para escrever téunica, direutu, aspeutu, aición, direición, etc. é incompreensível. É de comprovar que os autores mais importantes em língua asturiana evitam esta aberração que faz um dano imenso ao processo de normalização do asturiano, porque muitos eventuais utentes do idioma veem nisto um elemento dialetal e vulgar. A propia Academia acabou aceitando a manutenção dos grupos cultos greco-latinos, mas nos escritos mais académicos continua a usar-se a vocalização. Não faz sentido. É aqui onde eu aconselharia seguir o caminho do português e do sardo, que simplesmente eliminam a primeira consoante: prática, diretu, produción, produtu, aspetu, ación, redación, didática, imensu, xinasia, etc. (mas não <ns>: institución, constitución, etc.) Acho que, aliás, se adequa ao uso de <s> nos casos de <x> etimológico com valor /ks/, como esplicar, esponer, esatu, etc. Deveriam deixar-se casos determinados como a distinção entre setasecta, adición e adicción, e outros termos como técnica.

2. A separação do artigo enclítico

Pessoalmente eliminaria a obriga de apostrofação do artigo determinado el quando a palavra anterior acaba com vogal, porque há muitos casos em que realmente não há qualquer elisão da vogal. De facto, quando se trata de um ditongo não se costuma a elidir a vogal. Porém, como parece que esta é uma dessas normas proféticas da normativa, eu prefiro separar o artigo da palavra anterior com um espaço para indicar dessa maneira que o apóstrofo indica uma vogal elidível ou não e, além disso, não criar sandes ortográficas onde um verbo tem elisão por diante e por detrás, como em que s’emplegue ‘l tiempu. Já disse nalguma ocasião que o excesso de apóstrofos faz mal aos olhos, mas se tem que ficar, melhor que fique assim.

E por hoje vamos parar aqui. Quando a norma linguística deixe de ser sagrada e se possam introduzir mais algumas modificações, se calhar poderemos fazer novas propostas.