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Hoje um amigo enviou-me uma carta onde pedia que eu apoiasse que a Real Academia da Língua Espanhola reconhecesse o asturiano como língua e que não se referisse a ela como dialeto. Eu concordo com esse pedido ao cento por cento, mas o documento que me enviou era um bocadinho confuso porque pediam a mudança de várias entradas do dicionário da RAE em que se igualava asturiano com asturo-leonês, onde ambas as denominações faziam referência à mesma língua.

Foi aqui onde eu expliquei ao meu amigo que tinha discrepâncias com essa interpretação. Aliás, expliquei-lhe que a minha posição era a dum filólogo que não está a viver qualquer batalha nas Astúrias onde a visão do idioma costuma passar pelo coração e as ideias políticas, mas não tanto pelo espírito científico (eu ao menos pretendo analisá-lo cientificamente).

Uma língua é uma língua por decreto e, particularmente, porque possui um padrão. O padrão -ou pelo menos a coiné- são fundamentais para qualquer forma linguística alcançar o status de língua. O asturiano possui um padrão mais ou menos oficial desde 1981 (não vou agora discutir se está tecnicamente correto ou não). Essa é uma primeira questão.

A segunda questão é que não se pode confundir uma língua com um diassistema. O asturo-leonês não é hoje uma língua, é um diassistema. Lembro que há pouco tempo disse em Aveiro, no congresso sobre línguas não-estatais e TIC (a 8 de março 2012), que o asturo-leonês não será uma língua enquanto a maioria dos seus falantes não o queiram. Pronto, a dias de hoje, a grande maioria dos mirandeses não se reconhecem no asturiano. Portanto, dizer que o asturiano é língua co-oficial de Portugal é uma aberração, pois a língua co-oficial de Portugal, junto com o português, é o mirandês. Aliás, o mirandês também possui o seu padrão, desde 1999, diferente de tudo do asturiano.

Portanto, asturiano e mirandês são duas línguas diferentes, mas que pertencem a um mesmo diassistema. Essa é realidade a dias de hoje. Pode mudar, pronto, mas eu não sou adivinho e não posso prever o futuro.

Este diassistema asturo-leonês é apenas uma atualização do antigo conceito de dialeto leonês de que falava Ramón Menéndez Pidal, o pai da filologia espanhola, no início do século XX. Na altura, o asturiano e o mirandês eram estudados como parte do mesmo sistema linguístico, o qual ninguém discute. Na realidade, o conceito de dialeto que usava Menéndez Pidal era simplesmente para distinguir uma língua padronizada de uma série de falares não padronizados. Atualmente, dois daqueles falares têm padrão, portanto não são dialetos (e quero lembrar que o conceito de língua e dialeto é nomeadamente sociolinguístico, não linguístico).

Na România, como é bem sabido, existem vários diassistemas. Na Península Ibérica há três: o galego-português, o asturo-leonês e o catalano-occitano. Podemos adicionar também o padano (ou mais bem o galo-itálico), que inclui no seu seio várias línguas, entre elas o romanche (padronizado como grisão), o friulano e mais alguma outra.

A conclusão é que o que se tem de pedir a RAE é o reconhecimento do asturiano como idioma, não do asturo-leonês porque filologicamente não é exato. Outra questão é o leonês, cuja natureza fica um bocadinho confusa, porque o asturiano escrito pode penetrar nas terras de Leão, de tal modo que a escrita dos falares leoneses não é mais do que uma subnorma do padrão asturiano oficial, mas discutir sobre isso é já outra história.