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Esta manhã, quando cheguei ao meu escritório, encontrei um presente inesperado na minha mesa, mas não se tratava de qualquer presente, era um atlas linguístico.

Pois é. Tinha perante os meus olhos o Atlas Linguístico da Seavra Interior realizado por Fritz Krüger entre 1921 e 1922, atualizado e introduzido magistralmente por um dos melhores filólogos contemporâneos, Juan Carlos González Ferrero, pessoa séria quando se trata de elaborar estudos filológicos e nomeadamente dialetais, e publicado pelo Instituto de Estudios Zamoranos Florián Ocampo (ainda bem que o dinheiro público é bem investido).

A introdução explica qual foi o percurso do atlas e permite ao leitor perceber a importância deste trabalho. A partir daí, os quadros indicam quais as recolhas do Krüger na Seavra e na Carvalheda da província espanhola de Samora.

Foi um empenho pessoal do Juan Carlos González Ferrero trazer ao leitor atual a imensa obra do Krüger, que tão magistralmente estudou os falares do norocidente de Samora. Eu próprio também utilizei profusamente os materiais recompilados por Krüger para o meu estudo monográfico El habla de Sanabria (Romania Minor, 2011), porque infelizmente o estado atual dos falares asturo-leoneses daquela área é de pratica extinção.

E esta é a parte que, se calhar, me causa mais pena. Quando eu percorri a Seavra samorana para a recolha de materiais para o meu estudo, ainda durante o tempo de elaboração da minha tese de doutoramento (por volta de 1990-91), já os falares asturo-leoneses não se podiam escutar. Tive que pedir aos idosos que lembrassem como falavam antes, o qual é sempre complicado porque o dialeto é um síntoma -para eles- de antigos tempos que preferem amiúde esquecer. Portanto, o atlas do Krüger oferece uma visão exata e objectiva desse passado linguístico perdido (o livro conta inclusive com ótimas fotografias feitas pelo próprio Krüger).

Fica portanto um excelente trabalho científico pelo qual cumpre parabenizar o Juan Carlos González Ferrero, mas ao mesmo tempo também uma saudade daqueles falares perdidos, mas não esquecidos, cujo interesse é hoje maior do que era há um século.