Lembro que numa ocasião, há por volta de um ano, uma importante crítica literária disse que a literatura feita na internet não era literatura e menos ainda a crítica feita desde a net. Há vozes críticas contra a criação literária feita na net e realmente não percebo muito bem porquê. Contudo, acho que um dos motivos é o medo, o medo a perder o status de escritor ou de crítico, que vozes novas possam fazer o mesmo trabalho criativo ou crítico sem terem que pagar uma portagem embaraçosa.

Pessoalmente acredito na net como plataforma de difusão e universalização da literatura, o qual quer dizer que é, aliás, um modo de democratizar a literatura, tanto na parte criativa quanto na crítica. E a democracia, como é bem sabido, causa medo. Mas é isso tudo? Não. Os textos escritos e concebidos para a internet podem saltar para o papel. Quem disse o contrário? Há poucos dias lia que um importante escritor criticava que para ele representava uma aberração o facto de escrever para os aparelhos eletrónicos de leitura. Depois de ler isso, eu perguntei-me: mas existe mesmo alguém que escreva a pensar na plataforma em vez de na história? É que existem técnicas diferentes de escrita? Talvez quem lê em papel não pode ler em digital? Realmente absurdo.

Ainda assim, há uma fronteira mais que se está a ultrapassar e que no meu caso é motivo de imensa satisfação: trata-se da publicação de contos infantis em blogues. Comecei a fazê-lo em galego (e ocasionalmente em português) com O Reino dos Contos, e segui com Fabulandia, uma espécie de blogue clonado em espanhol.

Comecei a publicar contos por puro prazer (e essa continua a ser a minha motivação principal). Pensava no início que seria complicado que os garotos tivessem acesso ao blogue para ler, mas não foi assim. Por um lado, alguns amigos com filhos davam a ler os contos às suas crianças; por outro, alguns mestres começaram a usá-los nas aulas. E foi assim como o contato direto com o leitor infantil se tornou uma realidade. A minha experiência nesse sentido é já relativamente comprida. Comecei com O Reino dos Contos em 2006 e com Fabulandia em 2011. Tenho a certeza de que publicar LIJ em blogues é um modo respirar liberdade, mas não se trata simplesmente de escrever o que um quiser sem mais, mas de fazer um exercício de responsabilidade, sempre a pensar que uma criança vai ter acesso à leitura dos textos. Porém, quando os meus amigos me comentam que os seus filhos estão a gostar de algum conto, sinto-me feliz, imensamente feliz. E desde que os meus blogues deram o salto às escolas, ainda mais. Já tenho programado algum encontro com alunos de escolas elementares para falarmos de histórias.

E quando penso nisso, gostaria de ver a cara daquela crítica e daquele escritor que disfarçam os seus medos e as suas carências de falta de rigor criativo. Tudo seja por promover a leitura e, nesta altura, de graça (mas deste pormenor aparentemente sem importância, já falaremos noutra altura, porque é também motivo para desonrar os blogues). Entendamo-lo de vez: o medo é o pior inimigo da literatura e os preconceitos não são mais do que escusas. Deixemos os meninos decidirem.