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Uma visão global da situação sociolinguística de Marrocos

O final de maio de 2012 supôs para mim uma das experiências mais interessantes da minha vida por ter conhecido um país fascinante. Como neste blogue apenas de questões filológicas, não vou fazer referência nele às minhas experiências de qualquer outro campo, mas apenas do que eu vivi nas cidades de Rabat, Fez e Casablanca. E vou falar nesta área porque é na que eu estive e não no norte do país, onde a situação de convívio de línguas seria diferente, porque lá o espanhol desempenha um papel que não desempenha no resto do país.

Para começar, convém explicar qual a situação linguística do país em geral. Quando se diz que em Marrocos, como no resto do mundo árabe, se fala a língua árabe, não é muito exato. O que se pode dizer é que a língua árabe (clássica) é a língua oficial do país e que, como no resto das nações ditas arabófonas, o árabe é língua de uso muito restringido (televisão, rádio, educação) e como língua escrita, mas na rua ninguém fala árabe; em Marrocos, como em todos os demais países arabófonos, fala-se dialeto, por aqui chamado dáridja e que os espanhois conhecem também como cherja, mesmo nas cidades espanholas de Ceuta e Melilha. Se as coisas fossem tão simples, teríamos uma situação de diglossia normalizada com o árabe clássico (ARcl) e o árabe marroquino (ARma) numa hierarquia de dois níveis, mas realmente não é assim, porque o francês desempenha um papel muito importante.

A representação em mapa das línguas de Marrocos pode ser a de acima, onde o francês pode estar em qualquer dos dois níveis, embora no coloquial ocupe uma situação muito reduzida em Marrocos.

A língua da potencia colonizadora não despareceu do país depois da independência. Ao contrário, tem um status fundamental no país. Em Marrocos não se dá a mesma situação do Líbano, onde o francês (e ocasionalmente o inglês) deslocam o inglês como línguas de comunicação habitual. Em Marrocos ouvi pessoas de alto nível económico falarem francês aos filhos em Rabat, mas ignoro até que ponto isto é habitual. Contudo, outro elemento interessante respeto do francês é que as pessoas que têm mais de 40 anos falam o francês com um sotaque marroquino, enquanto as que têm menos dessa idade têm um sotaque francês totalmente europeu, até com o “r” parisino (e lisboeta :-)). É por isso que o papel do francês complica muito a situação linguística do país, porque embora não seja a língua comum de comunicação, sim o é mais do que o árabe clássico. Aliás, é uma língua muito mais empregada no ensino superior e, decerto, existem programas de rádio e televisão em francês. Existem, porém, pessoas que não falam francês (achei algumas), visto que existe o analfabetismo (mas nesse caso também não conhecem o árabe clássico)

Este mapa representa a situação de uma parte da sociedade libanesa em que o francês ganha terreno na comunicação quotidiana.

O fenómeno da alternância de códigos (code switching em inglês) tinha-o observado frequentemente em Tunesinos e Algerianos. Também o observei espontaneamente entre Marroquinos, mas é fraco. Porém, a alternância de códigos não se dá com o árabe clássico, mas com o dáridja. Eis um fenómeno interessante, porque isto é uma prova de que ocasionalmente o francês passa a ser uma língua de uso corrente na comunicação oral. Tanto é assim, que o francês pode converter-se numa língua dos anúncios. Encontrei o seguinte caso em que o menu aparentemente escrito em árabe apenas refletia os nomes dos produtos em francês

Os meus usos linguísticos em Marrocos

Tudo o anterior teve uma influência enorme na minha comunicação espontânea com os marroquinos. Logicamente, a primeira língua em que tentei comunicar-me foi o francês, visto que é a que melhor conheço das línguas conhecidas em Marrocos. O meu conhecimiento do dárridja é nulo, pelo qual não percebo nada do que eles falam.

É difícil explicar por quê. Porém, o facto de falar árabe produz uma certa cumplicidade que o francês não outorga. Quero dizer que em determinados contextos uma simples frase em árabe tinha muito mais sucesso e força do que um parágrafo dito em francês. Trata-se de questões extralinguísticas e, portanto, sociais. E quando empreguei o árabe, tinha ao meu dispor duas opções: o árabe clássico e o árabe egípcio.

O seguinte quadro representa a minha própia realidade em Egito, porém pode ser refeita abaixo, porque no emprego coloquial, não é preciso fazer referência a contextos formais. Como se vê, a variante árabe própria é a egípcia e é nela que eu falei em Marrocos.

Falar árabe clássico soa ridículo no 90% dos contexos informais, nomeadamente na rua, embora se faça em contextos formais. Existe até um território em que árabe clássico e árabe dialetal podem misturar-se (isto acontece com os falares do Oriente Médio e Egito, mas é raro nas áreas do norte de África), que nalguma ocasião eu também fiz, mas pessoalmente preferi falar árabe egício, que é o dialeto que conheço. É preciso dizer que o árabe egípcio é conhecido em toda a arabofonia pela influência dos programas de televisão egípcia. Portanto, quando falava neste dialeto, a compreensão do que eu dizia era, por norma, absoluta, embora eu não percebesse o discurso deles ao me falarem em dialeto marroquino. É neste contexto que algumas pessoas suavizaram o seu árabe marroquino com uma mistura de dialetal próprio e clássico (que evidentemente está sem codificar e é espontâneo a depender das necessidades comunicativas, um fenómeno muito interessante que não foi ainda estudado).

Sim falei árabe clássico em algumas ocasiões e sempre com pessoas de muita cultura. Tratava-se de pessoas que me identificaram como estrangeiro que estudara árabe clássico e, portanto, respondiam-me nessa mesma língua. Mas insisto que essa foi uma situação minoritária.

Os marroquinos são cientes de que o seu dialeto não é compreendido por outros árabes. Existe uma forma codificada do dáridja de que já nalguma ocasião encontrei textos (como também acontece com o árabe egípcio que até tem a sua versão da wikipédia), de que já tenho falado neste blogue.

É por isso que a minha visita a Marrocos produziu uma série de situações sócio-linguísticas de grande interesse.