Já tenho falado do fenómeno do monolinguismo militante, embora não o chamasse assim anteriormente. Mas, depois de um certo tempo a observar a realidade espanhola, cheguei à conclusão de que uma grande parte da povoação é monolingue por convicção, concretamente por militância política.

Há já alguns anos, os jornais espanhois de direitas vendem a imagem de que o espanhol, por ser a segunda língua internacional (coisa que é certa) serve para viajar por todo o mundo (coisa que é falsa). Alguns destes jornais até dizem que o espanhol é a segunda língua mais falada no mundo (o qual, com certeza, é também falso).

É fácil ver esses votantes da direita nacionalista espanhola sofrer como se tivessem hemorróides pela Europa Central a reclamarem que se lhes fale em espanhol. Talvez vocês possam afirmar que o de votantes da direita nacionalista espanhola é um preconceito, mas quando essas pessoas se movem com jornais como El Mundo, La Razón ou ABC debaixo do braço, não é questão de preconceitos, mas de evidências. Vi tantas vezes esses pobres espanhois chegarem a Praga e tentar falar em espanhol com o vendedor de salsichas (que aliás é russo), ou o camareiro na praça da Cidade Velha que tem um inglês excelente… E eles, fieis às doutrinas emanadas dos jornais que usam como catecismos, queixam-se de em Praga não se falar espanhol… É triste que Praga (ou Varsóvia, ou Berlim, ou Bucareste, ou Viena…) não seja Lisboa, que para o votante espanhol nacionalista de direitas é, sem os alfacinhas saberem-no, um terno bocadinho da Espanha perdida, mas que a ela, à mãe pátria, voltará…

Mas esta é apenas uma parte da doutrina do monolinguismo militante. Para o nacionalista espanhol não pode existir nenhuma outra língua na pátria santa. Portanto, o basco, o catalão e o galego têm de ser erradicados. Acusa-se os falantes dessas línguas de massacrarem os falantes de espanhol dos seus territórios. Os jornais nacionalistas espanhois de direitas fazem uma campanha contra as outras línguas próprias que fascinaria ao próprio Goebbels. Mas atendendo para o facto de a maioria dos nacionalistas espanhois serem acríticos, é muito simples manipular isso e mais coisas ainda.

Depois vem o argumento de o espanhol ser a língua de toda América. Porém, esta é a parte mais engraçada, porque os índios servem apenas para incrementar o número de falantes da língua espanhola, pois para o nacionalismo espanhol, racista na sua própria natureza, os índios são seres inferiores, mas como o inglês é também a língua dos pretos africanos, é o preço que há que pagar por ter milhões de falantes.

Para argumentarem que estão a favor do bilinguismo, introduzem o inglês nas escolas. Bom, mas quantos deles falam inglês? Acaso o espanhol meio tem um gene que lhe impede falar qualquer língua que não seja a sua própria? Por vezes acho que sim…

E é assim como, graças a argumentos falsos, o orgulho nacionalista espanhol, em grande medida baseado nos triunfos desportivos, pervive. Uma língua para um povo. Os que não a falam fora das fronteiras da pátria são uns ignorantes. O espanhol não precisa apreender outras línguas, portanto. Ninguém, porém, explicou nos jornais nacionalistas de direitas que o espanhol tem menos falantes em Europa do que o alemão, o francês, o inglês e o italiano, e tem quase os mesmos do que o polaco. Alguém até deveria já explicar a esses patriotas que o José Saramago era português…

Não tome ninguém estas linhas como um ataque à língua espanhola. É a minha língua materna, mas o uso instrumental e sujo que dela fazem os nacionalistas espanhois de direitas é uma questão que me chateia. Se alguma dia em Espanha não existissem outras línguas, os nacionalistas espanhois teriam que ressuscitar as línguas mortas para assim terem um inimigo contra o qual combater.