spokesperson

Todas as teorias atuais no ensino de línguas estrangeiras baseiam-se na chamada abordagem comunicativa. Tenho de dizer que concordo com tal abordagem, mas também é preciso dizer que não é a única opção válida porque atinge todos os interesses dos estudantes. Há pessoas que não precisam de um ensino baseado no emprego ativo da língua. Provavelmente tal situação não é majoritária, mas existe. Em certos casos, as pessoas não precisam falar a língua (não se importa a razão), mas apenas lê-la. Encontram-se muitos casos assim ao longo da história, como quando durante gerações, os especialistas apreendiam grego clássico e latim apenas para lerem os textos e, portanto, para extraírem informação e, nomeadamente, formação. A mesma situação está a acontecer a dias de hoje com certas línguas modernas, que não são apreendidas com propósitos comunicativos.

Acerca das quatro habilidades

Todos os métodos contemporâneos centram-se no desenvolvimento das chamadas quatro habilidades (ou seja, falar, ouvir, escrever e ler). Porém, a abordagem da habilidade única não precisa de todos os quatro, mas apenas de uma, embora em algumas ocasiões elas possam ser duas. Vamos ter presente que duas destas habilidades são ativas (falar e escrever), enquanto as outras duas são passivas (ler e escutar). As habilidades ativas são factualmente saídas (produtos ou ouputs), enquanto que as habilidades passivas são entradas (inputs).

No entanto, a dificuldade em processar os diferentes componentes é variável. Falar é mais complicado do que escrever, enquanto que ouvir (isto é, a compreensão oral) é geralmente muito mais complicada do que a leitura (isto é, a compreensão escrita).

A nossa proposta baseia-se exclusivamente em apenas uma habilidade: a leitura, provavelmente a mais fácil de ser alcançada, uma vez que a compreensão da linguagem escrita tende a envolver uma menor quantidade de processos mentais e que as operações intelectuais e a quantidade de conhecimento necessário é inferior do que nas outras habilidades, porque o conhecimento passivo é muito mais facilmente recuperado no cérebro. A relação entre as quatro habilidades pode ser representada da seguinte forma:

one-skill

Logicamente, o quadro anterior é uma generalização relativa ao grau de dificuldade. 

Algumas vantagens da abordagem da habilidade única

     Em países em que houver mais do que três ou quatro línguas não é possível garantir um conhecimento perfeito de todas elas. O conhecimento mútuo é a base do respeito mútuo. Vamos tomar o caso da Espanha, onde a língua oficial do Estado partilha uma parte do seu espaço com outras línguas, isto é, basco, galego e catalão, e mesmo com algumas outras. Como é bem sabido, todas as línguas vêm do latim (exceto o basco, cuja origem é obscura). O facto de todas as línguas estarem tipologicamente relacionadas torna possível uma compreensão relativamente simples entre elas. Em outras palavras, um monolingue falante de espanhol não deve ter grandes dificuldades para ler um texto escrito em galego, português ou catalão. Um conhecimento mínimo linguístico é certamente necessário, mas quanto galego tem que conhecer um falante de espanhol para se enfrentar a um texto escrito em galego? Não muito, na verdade.

E essa é precisamente a questão, é dizer, a aquisição de um fundo linguístico para compreender textos escritos. Vamos fazer referência a um caso bastante específico: os estudantes de literatura comparada.

Os estudantes de literatura geralmente requerem uma abordagem baseada na habilidade única na sua aprendizagem da língua estrangeira. Para a formação de estudiosos da literatura muitas vezes não se exige um conhecimento perfeito das quatro habilidades. Os estudantes universitários devem estar familiarizados com línguas diferentes, mas é improvável que eles dominem todas elas. No caso específico dos estudantes de literatura (futuros estudiosos, vamos supor), os textos são a matéria-prima. Portanto, os estudantes que trabalham com literatura comparada deveriam saber todas as línguas da mesma maneira? Certamente não. É por isso que a abordagem da habilidade única é absolutamente válida para estes casos, bem como para os outros casos que mencionamos anteriormente, especificamente os tradutores.