A língua própria da Galiza é (ou era, que já nem se sabe) o galego. Até aí, a maioria das pessoas concordariam. Mas a questão seguinte é: o que é o galego para além da língua própria da Galiza?

É possível formular esta pergunta. Pronto, é-o. E a questão é capital porque existe uma ampla confusão terminológica sobre o que é o galego. Já nalguma ocasião falei no galego-português como um diassistema, mas a sua natureza, pelo menos no concernente à Galiza, não faz mais do que criar confusão.

Falando com muitos amigos portugueses, tenho-lhes explicado amiúde que existem pessoas que utilizam o português da GalizaPara eles é uma autêntica incongruência, porque se se referir à língua da Galiza, tem que ser galego. Sim e não.

A língua galega oficial, cuja norma está fixada pela Real Academia Galega (RAG), data de 1982, com algumas modificações de 2003, é a única que emprega a Administração galega e o veículo de ensino (a cada vez menos) na Galiza. A imensa maioria das publicações em galego fazem-se conforme esta norma. Tal norma refere-se ao galego como uma língua independente, embora as suas relações com o português sejam confusas; tanto é assim, que usam o argumento de o galego ser útil para se entender com mais de duzentos milhões de pessoas que no mundo falam português. Engraçado. Em resumo, a norma galego independente e oficial usa para a sua escrita a ortografia espanhola adaptada às necessidades do galego.

Pelo outro lado, o galego pode ser escrito de conformidade com a ortografia portuguesa. A mudança ortográfica mal afeta a estrutura morfossintática do galego. Mas quando o disfarce ortográfico desaparece, um vê que as diferenças entre galego e português são muito menores do que as pessoas normais acham.

Porém, também é certo que o galego escrito com ortografia reintegrada admite diversos graus de aproximação do português padrão europeu. Dito de um modo simples, pode-se escrever numa forma linguística mais galega ou menos, com maiores concessões para o português.

Sem tentar homogeneizar o que a tendência reintegracionista e, portanto, mantendo que o galego escrito à portuguesa («galego reintegrado») fica mais perto do galego falado, não se pode ignorar que existe uma forma de escrever esta língua que renuncia a muitas das suas formas para se aproximar do português. Tal forma de escrever é o já mencinado português da Galiza. E é galego, tanto como o é o galego escrito na norma RAG. Para os amigos portugueses, direi que nesse galego reintegrado encontrarão coisas tão exóticas como estas:

  • falei-che por falei-te
  • falárom por falaram (porque falaram também se usa em galego, mas apenas para o mais-que-perfeito)
  • dixo, fizo/fezo, quijo por disse, fez, quis

No vocabulário há dúzias de palavras que são galegas e seguem a ser empregues com total naturalidade, embora muitas delas sejam arcaísmos portugueses ou sejam utilizadas ainda no norte de Portugal.

Se ainda tivessem a impressão que galego e português não são iguais, têm razão. Nem os portugueses falam galego nem os galegos falam português (agora já nem galego, mas espanhol com sotaque galego), mas falam algo que tem mais pontos em comum do que pontos diferentes.

Será possível que algum dia os portugueses aceitem o português da Galiza como uma variante mais do galego-português, do português língua internacional? A prova disso será que os livros escritos em português da Galiza poderão ocupar um espaço nas prateleiras das livrarias portuguesas, mas esse momento, suspeito, fica ainda muito longe.