Hoje recebi uma mensagem de uma das agências de tradução com que trabalho habitualmente. Dizia:

«Faz favor, que a tua tradução para galego soe o mais espanhola possível… É que o cliente quer que seja assim…»

Então, para que querem que “traduza” para galego? Não será melhor gravar o texto em espanhol lido com sotaque galego? Assim poupamos todos tempo e dinheiro. Quem quiser ouvir o texto em espanhol com sotaque castelhano preme num botão e quem quiser ouvi-lo em espanhol com sotaque galego, preme noutro. Não percamos o tempo com um idioma galego que ingenuamente tentou ser diferente do espanhol.

Eu posso entender muitas coisas sobre a realidade do galego. Posso entender argumentos a favor da sua independência respeito do português e o contrário. Eu tenho as minhas próprias ideias, mas o que não percebo é a visão de o galego estar submetido de uma maneira tão infame ao espanhol. Muitos dos termos que aparecem no dicionário do VOLG, tomados do português, não podem ser empregues em textos oficiais e oficiosos. Refiro-me a vocábulos como computador, prédio, relatório, e outros, para os que se prefere a forma coincidente com o espanhol. Porquê?

Há poucos dias, um amigo galego, filólogo, perguntou numa rede social:

Alguém me sabe dizer por que “mediodía” tem entrada no DRAG e “medianoite” nom aparece?

Não há uma resposta lógica a essa pergunta. Em espanhol existe medianoche como existe mediodía, em português a mesma coisa. Por que não em galego padrão? Por exotismo? Vamos pensar que sim. Contudo, a melhor resposta à pergunta de acima foi dada por outra utente da rede social que disse: «É assim porque na Galiza não se põe o sol». Pois é.

Se seguirmos com esta paranoia, convém declararem o português língua inimiga e hostil na Galiza, é uma grande ameaça, nem imaginam quanto; portanto, não leiam em português nem deixem os seus filhos lerem em português na Galiza, porque poderiam apreender a quinta língua mais falada no mundo! (e isso é de anti-patriotas).