Uma das críticas mais ferozes feitas pelos inimigos das línguas não-estatais é que os padrões linguísticos destes idiomas são totalmente artificiais. Entendem os não-filológos que um grupo de linguístas não têm qualquer capacidade de escolher entre diversas formas existentes num sistema linguístico e decidirem qual será a forma escrita, porque isso é tarefa dos falantes.

Este argumento conheci-o de perto nas Asturias e Galiza. No primeiro caso, argui-se que o padrão é uma espécie de ataque aos “bables”, é dizer, às falas locais. No segundo caso, como a diversidade dialetal não é tão marcada, tal argumento não dava, mas enfocou-se como que o galego padrão era uma coisa muito afastada do que se fala na rua, mas o que se omite é que o que se costuma falar na rua é um híbrido e de galego tem a cada vez menos, pelo que a procura da pureza no galego padrão é pouco menos do que uma obriga.

Decerto também o escutei dizer, e aínda con mais força, no caso sardo, onde utilizam o argumento de que o sardo padrão, a chamada limba sarda comuna, basicamente uma língua escrita, está “fatta a tavolino”, com o qual, pelo facto de ser artificial, já carece de qualquer valor. Este argumento é o máis estúpido de todos os que tenho ouvido, precisamente porque todas as línguas europeias de cultura são línguas “fatte a tavolino”, são línguas fixadas e pulidas por académicos ao longo dos séculos, que decidem quais as formas que correspondem ao padrão e quais não. Estou-me a referir ao italiano, espanhol, inglês, alemão, francês, russo, etc, todas elas línguas estatais.

Porém, a artificialidade das linguas não-estatais não é aceitável para os seus detractores, sem atenderem que se trata por norma línguas marginalizadas e ameaçadas, cuja única opção de sobrevivência é tornarem-se línguas perfeitamente fixadas, com uma norma culta equiparável à das linguas estatais. Se a democracia tiver que chegar às línguas não-estatais, que chegue também às estatais, que os falantes destas segundas decidam como acentuarem, como escrvererem, que palavras aceitarem e quais rejeitarem. A democracia, ou é universal, ou não é. O “tavolino”, ou serve para todas as línguas, ou não serve para nenhuma.