Justificação

Já numa ocasião tratei desta questão, mas agora vou tentar desenvolver mais o que é o asturo-leonês e o que representa no conjunto dos diassistemas ibéricos.

Na altura expliquei que atualmente e, para a Linguística Românica, o asturo-leonês não é uma língua, mas um diassistema (veja-se uma minha postagem anterior onde trato este argumento). A pirâmide que na altura trouxe é esta, onde se explica quais as relações entre os falares de um grupo:

piramide

Porém, esta pirâmide pode ser especificada no caso asturo-leonês da seguinte forma:

asturoleonesSe compararmos os dois gráficos, ver-se-á mais claramente quais os componentes do sistema asturo-leonês. A razão de serem um diassistema é histórica, isto é, o histórico leonês tal como o chamou Ramón Menéndez Pidal é uma das evoluções do latim ibérico, que se espalhou pelo ocidente ibérico, para o sul, entre o galego-português e o castelhano, e que foi o veículo linguístico do histórico reino de Leão.

O leonês medieval foi usado na altura em documentos, mas bem logo começou a ser substituído pelo castelhano.

Por outro lado, a denominação de leonês, concretamente de dialeto leonês corresponde a Menéndez Pidal, como já dissemos noutra postagem anterior. Porém, já nos anos 90 do século passado impos-se a denominação asturo-leonês impulsionada desde as Astúrias porque se pretendeu salientar o peso do asturiano em todo o grupo linguístico.

O asturiano

O asturo-leonês nasceu nas Astúrias e depois foi importado para o sul. É nas Astúrias que se conservou em melhor estado e onde tomou forma literária em primeiro lugar, já no século XVI. Desde aquela altura, tem-se feito literatura em asturiano ininterrompidamente.

Do ponto de vista linguístico, o Principado tem dois diassistemas: o galego-português na franja mais ocidental e o asturo-leonês no resto do território, como se vê no seguinte mapa:

Ficheiro:Asturian linguistic areas.PNG

Falares das Astúrias

Já desde os primeiros tempos, o falar central, marcado acima como B, foi a base de uma coiné literária. A razão disso é muito simples: o asturiano central era o falar dos núcleos urbanos mais povoados das Astúrias. Aliás, o facto de ele ser um falar central ficava no meio entre os falares ocidentais e os orientais.

Porém, não será até 1981 que se estabelece um padrão linguístico asturiano. Na altura, o asturiano é unificado ortograficamente pela primeira vez. Este padrão foi revisto em diversas ocasiões posteriormente, mas de um ponto de vista técnico continua a ser um padrão muito deficiente. Tal documento fala sempre de língua asturiana (llingua asturiana). A última revisão das normas é de 2005. Existe uma instituição responsável pela normativização do idioma, a Academia da Língua Asturiana, criada em 1979. Na sua presentação diz-se:

L'Academia de la Llingua Asturiana (A.Ll.A.) ye una 
institución del Principáu d'Asturies que se creó en 1980 
por Decretu del Conseyu Rexonal d'Asturies 33/1980 de 15 
d'avientu y con Estatutos aprobaos pol mesmu muérganu por
Decretu 9/1981, modificaos el 12 d'abril de 1995 (BOPA 
nu 136 de 14.6.1995).
.
L'Academia tien anguaño 22 miembros de númberu, 20 
miembros correspondientes y 16 académicos d'honor. Los 
académicos nun perciben nenguna retribución nin pola so 
condición de talos nin polos cargos que desempeñen na 
Academia.

Los cargos académicos son:
- Presidenta: Ana María Cano González
- Vicepresidente: Miguel Ramos Corrada
- Secretariu: Roberto González-Quevedo González
- Vicesecretariu: Urbano Rodríguez Vázquez
- Ayalgueru: Carlos Lastra López

Na Presidenta recái la representación pública de la 
institución.
.
El llabor de l'Academia, que vien dau polos sos Estatutos,
organízase en delles xuntes de trabayu:
.
- Lexicografía.
- Normativización.
- Toponimia.
- Pedagoxía.
- Lliteratura.
- Etnografía y Cultura.

No entanto, embora a grande maioria dos textos sejam redigidos em asturiano central -portanto, em padrão-, também alguns autores já vinham utilizando uma coiné própria para o asturiano ocidental, sem por isso pretender quebrar a unidade do asturiano.

AllaPorém, a coiné ocidental fica incorporada nas Normes, mas sem ser reconhecidas como uma subnorma própria. Isto provoca uma situação interessante, porque o asturiano ocidental possui uma norma própria de facto, mas não de jure. Nas normas do asturiano recolhe-se um dígrafo exclusivo dos falares ocidentais, que é <l.l>, que no resto do diassistema costuma equivaler a <ll>, como em gal.lu, l.lunaetc. Também para o /h/ aspirado dos falares orientais foi acunhado o grafema <h.> (de facto com o ponto por baixo da consoante).

O trabalho normativo deu um grande passo quando foi publicada em 2001 a Gramática de la Llingua Asturiana e vai pela terceira edição. Trata-se, portanto, de uma gramática normativa tradicional. Dentro do asturo-leonês é a única que existe.

Alla2Do ponto de vista legal, e tornando à classificação legal das línguas no Reino da Espanha que já apresentámos numa postagem anterior, o asturiano nas Astúrias é uma língua do tipo III, isto é, uma língua com reconhecimento numa lei regional, mas sem cooficialidade no seu território.

En resumo, o asturiano possui um padrão normativo e um subpadrão próprio do asturiano ocidental, com uma gramática própria tutelada pela Academia da Língua Asturiana.

O mirandês

O mirandês é oficialmente a segunda língua oficial de Portugal desde 1999. Este reconhecimento tem um grande valor simbólico, mas na realidade a única língua oficial de Portugal é o português. O mirandês, como o asturiano, é uma língua ameaçada e em grave perigo de extinção.

O mirandês é um idioma pelas mesmas razões que o asturiano e que se podem sintetizar assim:

  1. Possui um padrão.
  2. Possui uma legislação que assim o reconhece.

Existe, portanto, um mirandês padrão, cujas formas ortográficas estão baseadas no português (do mesmo modo que as do asturiano estão baseadas no espanhol). O equivalente mirandês às Normes do asturiano é a Convenção Ortográfica Mirandesa, um pequeno manual de 1999. Nesse documento dá-se uma justificação de por que o mirandês é um outro idioma:

A origem do mirandês remonta ao período em que, numa zona muito
mais vasta, incluindo as Astúrias e Leão, se começou a 
constituir um grupo de variedades romances com muitos traços com
uns entre si e que as distinguiam de outros romances também em 
formação - por um lado, o galego-português e, por outro, o 
castelhano. A esse conjunto romance deu a tradição linguística a
denominação de leonês, denominação essa que tem vindo a ser 
substituída pela de asturo-leonês, mais conforme com a sua 
antiga extensão histórica e geográfica. Trata-se de variedades 
que enfrentaram os séculos sem apoio de uma escrita específica,
dado que no tempo da sua maior pujança se escrevia 
exclusivamente em latim, e que, passada essa época, só as 
línguas que correspondiam a um poder mais forte, politicamente 
centralizado e complexo, cultivaram escritas românicas e 
acabaram por estabelecer normas com tendência unificadora. 
Apesar disso, é possível à História da Língua encontrar, 
sobretudo em documentos não literários, testemunhos escritos da 
existência e persistência desse antigo agrupamento linguístico 
ao longo dos séculos.
Do lado espanhol, do antigo conjunto histórico asturo-leonês 
apenas o asturiano alcançou um estatuto oficial de relativa 
protecção, dispondo hoje, no Principado das Astúrias, de 
instituições e personalidades científicas que o promovem, 
estudam e divulgam das mais variadas formas. O asturiano está 
hoje dotado de uma norma ortográfica flexível, que dá 
possibilidade de expressão às suas variedades. Esta norma, 
contudo, não é adequada à grafia do mirandês: apesar de 
pertencerem ao mesmo continuum linguístico, os dois idiomas 
ocupam extremos opostos do território respectivo, traduzindo-se
o seu afastamento geográfico e o seu alheamento comunicativo em
diferenças de fala bastante significativas, que as normas 
ortográficas respectivas não podem ignorar. Estes motivos e 
outros - como a influência, em pano de fundo, da ortografia do 
espanhol e do português - desaconselhavam a procura de uma 
unidade de escrita transfronteiriça, de difícil e morosa 
construção. Impunha-se encontrar um código que reflectisse a 
unidade interna do mirandês e que recobrisse a própria variação
local, de modo a tornar-se num instrumento de comunicação 
simultaneamente amplo e colado à realidade, para poder ser 
reconhecido como um código de identificação colectiva pela 
população a que se destina. (Convenção, p.5, sublinhado por nós)

mirA Convenção reconhece, portanto, o diassistema asturo-leonês, mas fala no mirandês como um idioma.

À diferença do asturiano, a normativização do mirandês não conta com os instrumento necessários para ser implementada. Não existe qualquer academia, embora num primeiro momento existisse uma comissão que redigiu as normas do mirandês, mas atualmente o idioma fica um bocadinho órfão a respeito de uma autoridade académica que se ocupe da sua normativização e normalização.

A extensão atual do mirandês pode ser vista no seguinte mapa:

RegiaoMiranda

O leonês

Provavelmente o mais complicado é tentar situar o leonês no contexto asturo-leonês. Legalmente não é uma língua (não tem esse reconhecimento), nem a sua existência é reconhecida por qualquer lei.

O que é exatamente o leonês? Sob este nome podem ser reconhecidos todos os falares das províncias espanholas de Samora e Leão. Vamos deixar perder a questão dos velhos falares mais para o sul, porque estão praticamente extintos.

xurdirDesde finais do século passado vem-se fazendo um uso do leonês no terreno literário. Num primeiro momento tentou-se adaptar a norma asturiana para a escrita do leonês, porém durante algum tempo surgiu uma corrente que tengou independizar o leonês do asturiano, que não frutificou. A realidade hoje é que a promoção e normalização do leonês passa por uma adaptação da norma do asturiano padrão para um leonês unificado. Nessa linha, a filosofia da normativização está recolhida num livro que tenta recolher uma série de propostas ortográficas, bem que uns princípios morfossintáticos (também na linha das Normas da Academia Asturiana). O livro em questão intitula-se Xurdir e foi editado em 2010

Sobre os princípios linguísticos à hora de escolher uma forma unificada leonesa, diz-se no sítio do grupo Faceira:

   La base llingüística fundamental, pero non esclusiva, de la obra 
son dúas variedades llionesas, el cabreirés y el pal.luezu, y esta 
escoyeita obedez a las siguientes rezones:
   En primer llugar, el principiu inescusable d’atenese a la realidá 
oral del llionés, lo que llevóu a partir de las falas de las dúas 
zonas onde la llingua presenta mayor vitalidá en Llión y Zamora, la 
suroccidental y la noroccidental de la provincia llionesa.
   Tamién túvose en cuenta qu’esas variedades cuentan na actualidá 
con cultivu lliterariu, más destacáu en L.laciana ou Palacios qu’en 
Cabreira.
   Pol feitu de que dambas modalidades seyan representativas de los 
dous bloques xeográficos más importantes de la llingua en Llión y 
Zamora: l’asturllionés occidental de tipu D (que s’espaya tamién pol 
occidente asturianu), y el berciano-senabrés, que s’esparde por 
muitas comarcas del occidente zamorano-llionés hasta llazar col 
mirandés pol sur.
   Cabreirés y pal.luezu mantienen amás un mayor númaru de formas y 
estructuras xenuinas ou autóctonas, específicas por ello de la nuesa 
llingua y que presentan una mayor distancia ou diferencia respective 
al castellanu.

Um problema de nomenclaturas

O que tenho exposto até aqui responde a critérios linguísticos e sociolinguísticos (e também legislativos). Existem, portanto, duas línguas no diassistema asturo-leonês, e um tercer elemento, o leonês, cujo encaixamento causa dificuldades. A dias de hoje, o leonês não é uma língua e nem os seus promotores parecem ter intenção de o considerarem um idioma diferente. Existe, portanto, um  problema de nomenclatura.

A solução pareceria chamar o conjunto dos falares das províncias espanholas onde se falam formas do asturo-leonês, precisamente assim: asturo-leonês, mas a questão é que essa denominação já existe para um domínio, não para um idioma.

A minha opinião é que os falares asturo-leoneses do lado espanhol deveriam ser nomeados simplesmente como asturiano, sendo eles considerados, com efeito, uma só língua, sem incluir neles o mirandês. Desta maneira, a denominação leonês poderia servir para denominar o asturiano falado ao sul das Astúrias, da mesma forma que o nome valenciano serve para denominar as variantes do sul da Catalunha no País Valenciano, sendo tudo um só idioma, o catalão.

Para concluir, a realidade do asturo-leonês desde o ponto de vista normativo poderia ficar refletida no seguinte esquema, onde num primeiro nível se encontra o diassistema, no segundo os dois padrões linguísticos e no terceiro os dois subpadrões ou subnormas que existem de facto e que dependem do asturiano:

asturoleones2

O asturiano-leonês é portanto um diassistema que se espalha por parte de Espanha e de Portugal. Do lado português emerge como a língua mirandesa. Do lado espanhol emerge como a língua asturiana, também chamada leonês fora das Astúrias. A língua asturiana possui, aliás, dois subpadrões ou subnormas: a asturiana ocidental e a leonesa.

Xavier Frias-Conde, UNED