Justificação

Sempre tenho apoiado a Língua Sarda Comuna (LSC) como um elemento absolutamente necessário para alcançar um padrão linguístico do sardo. De facto, a LSC é já um padrão e possui as caraterísticas de um padrão. Porém, o padrão atual pode -e deve- ser melhorado. Uma das críticas razoáveis que se fazem é que representa em maior medida os falares setentrionais do que os meridionais. Nunca um padrão pode satisfazer todas as expectativas, mas sim é possível recolher alguns elementos meridionais. Já numa postagem anterior fiz uma proposta que, ao meu ver, poderia oferecer uma solução que recolha os resultados evolutivos dos dois grandes falares sardos. A seguir, farei referência a outros elementos da atual LSC que acho que poderiam também ser revistos. Tome-se isto como propostas apenas.

O sistema de acentuação

A LSC propõe um sistema de acentuação próprio, mas que tem certas semelhanças com o catalão e o português. Encontro este sistema coerente, exceto num  caso: quando se trata de gia, gio, giu. Não é correto acentuar uma palavra como faulàrgiu, porque não é proparoxítona. Se separarmos a palavra em sílabas, a sílaba tónica é paroxítona: fau-làr-giu e não *fau-làr-gi-u. Podemos considerar proparoxítonas outras palavras como sèriu, istùdiu, etc.  Portanto, o lógico seria escrever faulargiu sem acento. No entanto, quando o acento cai no <i> e este sim é pronunciado, deveria usar-se o til, como em filologìa.

O emprego do hífen para a separação dos clíticos

A LSC propõe separar os clíticos pós-verbais com o ponto alto, o qual acontece em sardo em dois casos: depois do gerúndio e depois do imperativo. Não percebo a razão de usar o ponto alto, que é muito complicado de encontrar com um teclado italiano, embora concorde com utilizar qualquer elemento que separe o clítico do verbo. Assim acontece em catalão, português e francês (por exemplo, catalão: cantar-lo, expliqueu-vos, etc.), mas não se separam em espanhol e italiano.

Acho que o mais simples seria empregar também o hífen em sardo. Assim, encontrar-se-ia uma sequência como: còmpora-mi-lu, so andende-mi-nche, etc.

A letra <j>

A LSC reconhece o uso de <j> mas não em posição inicial. Não encontro razão alguma para esta regra. Não percebo por que iaju não pode ser jaju, o qual, aliás, seria muito mais lógico e simples para lembrar.

O uso do grafema <tz>

Na LSC a grafia <tz> reproduz o fonema /ts/. Porém, em muitos casos na realidade há um fonema /tš/ coincidente com o italiano. É verdade que em alguns casos (muito escassos), o sardo apresenta /ts/ também nos dialetos meridionais, como em tzidade, mas por norma está a impor-se uma simplificação estranha que de facto produz duplas pronúncias deste dígrafo.

Acho que o correto seria deixar <tz> para aqueles casos em que a pronúncia geral é /ts/ (e em certos falares até /θ/), enquanto quando a pronúncia do sul for /tš/, seria preferível empregar <c>, a coincidir com o uso italiano: <cia, ce, ci, cio, ciu>: centru, processu, cinesuetc., em vez de tzentru, protzessu, tzinesu.

Este é um passo avante que só se deu parcialmente na substituição da LSU pela LSC. Na altura, usavam-se grafias como zente, psicolozia, que depois foram substituídas pelas atuais gente, psicologia (melhor neste caso: psicologìa) como já disse acima. Quanto à pronúncia, aqueles falantes que por norma pronunciam /ts/ podem pronunciar sempre centru como /’tsentru/

A escrita com <c> também aproximaria o sardo das outras línguas românicas no ortográfico.

De <lli> e <nni>

Este é um dos elementos menos desenvolvidos na LSC. Parece claro que o fonema /λ/ é representado pelo grupo <lli> (as observações sobre a acentuação de <gi-> lá acima são válidas também aqui, portanto deveria ser traballiu e não trabàlliu).

Porém, quanto a /ñ/ existe a dupla hipótese de utilizar <gn> ou <nni>. Na LSC parece que seja indiferente o emprego de uma ou outra grafia, exceto no caso de Sardigna, que deve ser obrigatoriamente escrito assim. Num padrão não se deixam elementos sem resolver como estes. Pessoalmente encontro muito pouco rigoroso que o utente do idioma possa escolher a grafia de uma palavra que contém o fonema /ñ/. A minha escolha pessoal seria <gn> em todos os casos, também por questões etimológicas que permitem manter a grafia original em palavras como ignorante, mangìficu. Assim, evitaria grafias como onni por ogni (embora coincida com o italiano), porque onni parece pedir uma pronúncia /’onni/ em vez de /’oñi/.

Qualquer padrão sofre modificações. Seria bom que na LSC se fossem introduzindo já algumas. Como já disse no início, o que eu escrevi lá acima são apenas propostas que afetam exclusivamente a aspetos (fono-)ortográficos do idioma.

Xavier Frias-Conde, UNED