Uma dessas raízes interessantes que deixou pegada nas línguas europeias atuais é o termo indoeuropeu dom. Significava na altura casa e todas as pessoas que estudaram latim lembram domus, -us, vocábulo da quarta declinação, que também, segundo os manuais, podia ser declinado pela segunda. Tanto é assim, que quando o latim na sua última etapa tinha reduzido o sistema de casos, domus já só foi da segunda.

A forma coincidente com a latina é a que se encontra na maioria das línguas eslavas. Assim, checo důmeslovaco, polaco, russo, croata dom (дом). Foi assim que, quando comecei a apreender checo, no início da década de 2000, me chamou muito a atenção escutar expressões como jsem doma (=estou em casa), que quase pareciam ditas em latim.

A palavra domus desapareceu quase totalmente nas línguas românicas atuais. Já no próprio latim existia casa, -ae, que significava mais ou menos alpendre, cabana. Este é um fenómeno que na altura foi muito comum, quando uma palavra com valor despetivo ocupou o lugar da palavra corrente; assim aconteceu também com caballus, que substituiu equus. Da mesma maneira, casa substituiu domus, o qual passou a ter o significado comum e que hoje ainda mantém na maioria das línguas românicas, veja-se: casa (ES, PT, CT, IT), casă (RO). Porém, há algumas exceções como, o francês maison e o occitano ostal. Porém, até estas exceções são relativas, porque o francês chez deriva de casa.

No entanto, a desaparição de domus não foi total. Há uma língua românica onde casa não deslocou domus. Isso aconteceu em sardo, onde a palavra latina mantém a sua completa vigência: domu (plural domos), com o significado de casa. Além disso, o italiano emprega a palavra duomo para se referir a uma igreja maior, cuja etimologia é certamente domus. No caso italiano, provém da forma composta mecieval domus ecclesiae o domus episcopi. E a forma italiana deu lugar à alemã Dom com mais ou menos o mesmo significado.

Aliás, deixou derivados cultos, como o português domesticar, domardominar (e domear forma patrimonial em galego), domínio, domicílio e outros já derivados no próprio latim, como dominus, do qual por sua vez deriva dominicus, que é o atual domingo. De dominus deriva o título dom (PT), don (ES), bem como dono (PT), dueño (ES), a partir do protorromance domnu. A diferença entre as duas formas responde ao seu uso átono ou tónico. Usava-se átono diante de um nome como forma de cortesia: domnu Antoniu > dom António. Mas nem só isso, porque domo segue a fazer parte da palavra composta mordomo (PT), mayordomo (ES), majordom (CT, RO), maggiordomo (IT) ou majordome (FR).

Como se vê, a palavra está muito mais viva do que parece.