sardignaRecentemente, o Giuseppe Coròngiu, uma das pessoas mais comprometidas com a língua sarda, denunciava a política de dividir o sardo em dois para torná-lo mais fraco. Dessa maneira, consegue-se que o processo de recuparação do idioma, a sua normalização, fracasse. Porém, essa política não é exclusiva da Sardenha, mas ao contrário, está muito generalizada. No caso sardo, a divisão entre norte e sul envolve a ruptura da unidade da língua até ao ponto de se propor a criação de dois padrões linguísticos diferentes, de facto o reconhecimento de duas línguas, que se poderiam chamar campidanês e logudorês. A questão não é inocente, porque para além do risco de acelerar a extinção total do sardo, o que aparece também, como o Pepe Coròngiu indicava, é uma luta de pessoas que querem manter os seus privilégios ou adquirir outros de que atualmente carecem. Infelizmente, as divisões de línguas nem sempre são por questões sociolinguísticas, mas por lutas intestintas pelo control do idioma. É assim na Sardenha, mas também noutras línguas.

Se atendermos para outras divisões feitas legislativamente, o primeiro caso é a do galego-português. O galego, legalmente, é uma língua independente do português. E já citei em múltiples ocasiões que o galego das Astúrias é também uma língua independente por motivos políticos. A partir daí, estabelecem-se normas que tentam justificar a distância entre-línguas, onde se salienta tudo quanto têm diferente, obviando o que têm em comum, que é maioritário. Há pouco tempo, eu disse em Aveiro que os galegos não falam português nem os portugueses falam galego, mas isso não significa que não falem a mesma língua. Portanto, como seria o panorama com uma unidade linguística e cultural que abrangesse todo o ocidente da Península Ibérica?. E não estou a falar de uniões políticas, porque isso não me interessa, só falo em línguas.

Também não o catalão fica livre. As tentantivas dos chamados blaveros de independizarem o valenciano do catalão estão a fracassar, apesar dos esforços, mas lá está a questão latente. Porém, ultimamente a questão tomou forças nas Baleares, onde a mesma direita nacionalista espanhola que também governa em Valência sustém que nas Ilhas se falam três línguas (pelo menos): malhorquino, menorquino e ibicenco, para dessa maneira dinamintar a unidade catalã. No entanto, o caso mais aberrante é o de Aragão, onde na faixa oriental o governo de direita nacionalista espanhola criou também por decreto, como no caso asturiano, o LAPAO, siglas incompreensíveis que tentam enterrar a denominação de catalão para aquelas falas.

Como filólogo que sou, e sem vistas políticas, só posso falar num só galego-português, um catalão e um sardo. Isso não significa que estas línguas sejam monolíticas, que todos os falantes de galego-português, por exemplo, têm que falar e escrever segundo a norma de Lisboa, porque é absurdo, pois todas as três línguas são pluricêntricas e a norma escrita tem que ser também pluricêntrica. Querer impor uma norma inflexível seria absurdo, pois também o espanhol é uma língua pluricêntrica com várias normas. O conceito de pluricentrismo na norma não quer dizer que haja mais de um padrão, pois o espanhol ou o inglês têm apenas um padrão, mas têm mais de uma norma. No segundo caso há duas principais, a británica e a americana. No caso do catalão, para um só padrão há três normas básicas: a catalã, a valenciana e a balear. Não podemos esquecer o caso português, onde existem duas normas principais: a portuguesa e a brasileira. E é justamente aqui onde surge a iniciativa de a galega ser a terceira norma dentro do padrão português. A pluralidade de normas permite, paradoxalmente, manter a unidade da língua, pois em todos os casos se reconhece apenas um só padrão.

Portanto, a vontade de fragmentar línguas únicas pode ser devido a manipulação, egolatria, ou estatalismo nacionalista glotocida, mas também as tres coisas juntas.